(Imagem gerada por IA) Imagine uma mulher, que pode ser uma filha, uma esposa ou uma mãe, acordando numa terça-feira comum, abrindo a sua mídia social enquanto toma um café checando as novidades da sua rede de contatos e dando de cara com um vídeo em que ela fala coisas absurdamente vulgares, ou pior, ver uma foto dela completamente nua rodando nas mídias sociais. O detalhe perturbador é que jamais ela esteve naquele lugar, jamais gravou aquele vídeo e jamais tirou aquela foto. Essa é a rotina exaustiva enfrentada pela atriz Paolla Oliveira que se tornou uma das vozes mais ativas do Brasil ao denunciar publicamente o uso criminoso de inteligência artificial para a criação de deepfakes, que são imagens e áudios falsos produzidos por algoritmos avançados de IA, frequentemente voltados à pornografia. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A atriz afirma que encontrar fotos e vídeos manipulados com sua imagem virou rotina, desabafando sobre o absurdo de ver fotos que nunca tirou na internet e vídeos onde aparece dizendo coisas que nunca saíram de sua boca. A gravidade da situação ganha contornos ainda mais preocupantes quando olhamos para a estrutura por trás dessa prática. Não se trata de uma brincadeira isolada de um adolescente inconsequente no quarto de casa, mas sim de uma indústria ilícita altamente lucrativa e estruturada. Um monitoramento recente conduzido pelo Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro identificou 198 anúncios falsos utilizando indevidamente a imagem de Paolla Oliveira e rodando livremente em plataformas da Meta, como Instagram e Facebook. Do total de anúncios, 191 direcionavam os usuários diretamente para canais do Telegram (concorrente do WhatsApp), onde robôs programados simulavam conversas com a própria atriz para comercializar pacotes de pornografia falsa. Esse modelo de negócio escancara que a imagem da mulher foi convertida em mercadoria barata em feiras virtuais clandestinas. Paolla destaca uma camada dolorosa dessa realidade ao ressaltar que, enquanto ela possui recursos financeiros e assessoria para brigar na Justiça, a imensa maioria das vítimas são mulheres comuns que não têm rede de apoio nem condições de enfrentar uma batalha judicial longa e desgastante. O panorama nacional reflete esse ecossistema de vulnerabilidade e impunidade digital. Um relatório oficial divulgado pela Agência Nacional de Proteção de Dados aponta que o Brasil registrou um crescimento alarmante de 126% nos casos de deepfake, concentrando sozinho 39% de todas as ocorrências de manipulação sintética registradas na América Latina. Diante dessa situação, o Congresso Nacional busca saídas legislativas para tentar conter a crise. O Projeto de Lei 5.695/2023 se destaca como uma das propostas mais maduras para enfrentar o problema ao sugerir a criação de um tipo penal específico para proteger as mulheres. O texto propõe alterar a Lei Maria da Penha para punir com reclusão de um a dois anos, além de multa, quem utilizar inteligência artificial para manipular imagens, áudios ou vídeos com o objetivo de causar humilhação, constrangimento, assédio ou qualquer forma de violência doméstica e familiar. Apesar de estar pronto para votação no plenário da Câmara dos Deputados, o projeto continuava aguardando apreciação final até o segundo semestre de 2026, deixando expostas milhares de brasileiras que enfrentam diariamente a destruição de suas reputações. Dessa forma, vemos a tecnologia revolucionar o mundo na velocidade da luz enquanto nossas leis continuam se arrastando a passos de tartaruga.