Sabe aquela sensação de que não podemos acreditar em mais nada do que vemos na tela do celular? Estamos vivendo um momento curioso na história da internet, em que a inteligência artificial, por ser uma tecnologia tão poderosa e já impregnada na nossa vida, acaba levando a culpa por problemas que, na verdade, são totalmente humanos. Quando lemos uma notícia falsa ou nos deparamos com uma montagem absurda, a primeira reação de muita gente é apontar o dedo para a IA, até porque as manchetes estimulam isso, como se o modelo de IA tivesse acordado um belo dia com a intenção de espalhar boatos e enganar o mundo. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A verdade é que a IA funciona apenas como uma ferramenta, um pincel digital de alta precisão que embrulha o conteúdo, mas quem escolhe o que será pintado e qual será a mensagem entregue é, invariavelmente, uma pessoa com interesses específicos. Para colocar ordem na casa, precisamos separar os conceitos antes que o pânico tome conta das nossas decisões diárias. O cenário é tão desafiador que estudos recentes mostram como a desinformação está ganhando terreno, com o 1º Panorama da Desinformação no Brasil indicando que a proporção de conteúdos falsos produzidos com o auxílio de IA saltou entre 2024 e 2025: de 39 para 159 casos, um aumento de 308%. Esse aumento não é um erro do sistema, é uma escolha estratégica de quem utiliza a tecnologia para criar narrativas que, muitas vezes, possuem fortes vieses ideológicos e buscam o impacto emocional rápido. Agora, vamos falar sobre a diferença entre as duas grandes estrelas desse palco digital que costumam ser confundidas: as deepfakes e os influenciadores sintéticos. Quando você assiste a um vídeo do tipo deepfake, você está diante de uma distorção de um conteúdo que originalmente era real, envolvendo uma pessoa que existe de verdade, mas que teve seu rosto ou sua voz manipulados para dizer algo que nunca saiu de sua boca. É uma técnica que altera a percepção da realidade. Já o influenciador sintético é uma criatura totalmente diferente, uma personalidade que sequer existe na vida real. Ele possui identidade, voz, estilo de vida e até um histórico de conquistas construídos inteiramente por meio de algoritmos, o que torna o seu próprio nome, sintético, a definição mais precisa do que ele representa na internet. No Brasil, tivemos o famoso caso da Dona Maria, uma senhora criada por humanos, com IA, e que teve o seu perfil desativado devido às polêmicas geradas por ela na internet. Maria nunca existiu na vida real e naquele momento ninguém percebeu. Estamos atravessando uma fase de adaptação e é perfeitamente normal que a confusão ainda reine enquanto não estamos devidamente acostumados com essas novas camadas de realidade. É como se estivéssemos aprendendo uma nova língua de fato e o desafio real não é a tecnologia, mas sim o nosso olhar crítico diante do que é entregue no nosso feed de notícias. Em um mundo onde mais de um bilhão de pessoas utilizam plataformas de IA todos os meses, a confiança se tornou o bem mais precioso que podemos oferecer. Marcas e criadores de conteúdo que quiserem sobreviver precisarão provar que são transparentes, entregando humanidade e contexto em um mar de automatização quase perfeita. A tecnologia não vai parar de evoluir, isso é um fato inquestionável. No entanto, o papel de filtrar o que é verdadeiro e o que é pura criação sintética recai sobre cada um de nós, usuários e cidadãos digitais. Não podemos contar com o algoritmo das mídias sociais a responsabilidade de ser o nosso guardião da verdade quando ele foi programado apenas para otimizar a entrega daquilo que nos mantém conectados. Se a IA é apenas o meio, nós somos o fim e a ponte que conecta a mensagem à realidade.