Quem mora na Baixada Santista conhece bem aquela cena de falta de luz diante de uma tempestade. Infelizmente, essa cena é o melhor atalho para entender o que o avanço tecnológico está começando a provocar no sistema elétrico do planeta. Imagine juntar numa mesma conta de luz três grandes consumidores de energia da era digital: os data centers que guardam os servidores as máquinas que mineram criptomoedas dia e noite e a inteligência artificial que responde às nossas perguntas 24 horas por dia. Depois disso, perceber que, só em 2022, eles devoraram juntos cerca de 460 TWh de eletricidade, o equivalente a 2% de toda a energia elétrica consumida no planeta naquele ano. Pode parecer uma fatia pequena, mas esse número é o aperitivo de um banquete que está longe de terminar, porque a Agência Internacional de Energia projeta que, até 2030, só os data centers devem chegar a algo entre 945 e 970 TWh, mais que o dobro dos cerca de 415 TWh que consumiram em 2024, com a inteligência artificial ocupando a cabeceira da mesa como a principal responsável por esse crescimento. Precisamos lembrar que toda vez que pedimos para uma IA resumir um documento ou criar uma imagem, um servidor em algum data center trabalha, esquenta, precisa de eletricidade para funcionar e de ainda mais eletricidade e água para ser resfriado. Parece pouco quando pensamos em uma única pergunta, mas bilhões de pedidos por dia transformam essa conta em outra escala, ou seja, o “custo invisível” da IA é real. Só que para essa história ficar ainda mais interessante, a mesma tecnologia que pressiona a rede é a que pode torná-la capaz de suportar essa pressão, porque a IA também pode ajudar e muito com recursos capazes de tornar o sistema elétrico mais eficiente, previsível e flexível. Algoritmos de IA já conseguem prever com horas de antecedência quando o sol vai bater nos painéis solares, identificar um transformador prestes a falhar antes que ele deixe um bairro no escuro depois daquele estrondo seco que às vezes a gente ouve e prever quando vai sobrar energia, porque ela cruza a previsão do tempo com o histórico de consumo das cidades para responder em quais períodos desta segunda-feira (5), por exemplo, haverá mais energia do que gente precisando dela. No final das contas, tudo se transforma. A telefonia saiu do orelhão e foi para o celular, a internet trocou a conexão discada pela fibra óptica e agora chegou a vez de a rede elétrica passar pela mesma virada. Sem essa digitalização, o risco é conviver com instabilidades e apagões mais frequentes. O problema é que a tecnologia avança mais depressa do que a infraestrutura e as leis conseguem acompanhar. Para reduzir essa distância, o poder público pode incentivar a modernização das redes, com investimento em medição inteligente e automação. As agências reguladoras podem exigir que as empresas de tecnologia divulguem o consumo de energia e de água de seus data centers e estimular que novas instalações sejam abastecidas por fontes renováveis. Essa transparência não precisa parar nas empresas, ela também pode chegar para quem usa a tecnologia no dia a dia. A gente pede cada vez mais da rede elétrica. Carregar o celular, carregar o carro, usar a IA toda hora, maratonar séries... A grande questão é: em algum momento ela vai deixar de aguentar?