Urgência, medo e curiosidade são usados por criminosos para enganar a geração da era analógica, que precisa desenvolver novos hábitos de proteção (Adobe Stock) Para quem construiu a vida em um tempo de escrita à mão, conversas de calçada e jornais impressos, a tela do celular muitas vezes se parece com uma terra desconhecida, repleta de placas em um idioma nada acessível. A tecnologia avançou rápido demais, atropelando gerações que aprenderam a confiar na palavra dada. Hoje, o maior desafio de quem tem mais idade não é apenas aprender a tocar em um ícone ou atualizar um aplicativo na loja de aplicativos do celular, mas sim desenvolver um novo sentido, que é o discernimento diante de um mar de ciladas propositais. Geralmente, essas ciladas vestem a pele de uma urgência forjada, de um susto para você parar de raciocinar, como, por exemplo: “A sua aposentadoria foi bloqueada”, “Promoção relâmpago que acabará em 5 minutos” ou “Essa notícia é urgente e a grande mídia esconde de você”, entre muitos outros exemplos… Todos eles são armadilhas desenhadas exatamente para o cérebro humano, que, por sobrevivência evolutiva, reage primeiro ao medo e à curiosidade. Um levantamento recente realizado pela Fundação Seade - Sistema Estadual de Análise de Dados revelou que 82% das pessoas com 60 anos ou mais no estado de São Paulo já enfrentaram tentativas de golpes virtuais por meio de mensagens, ligações ou e-mails. Sobreviver a essa era sem perder a paz exige a construção de um escudo baseado na desconfiança saudável. Validar uma informação ou escapar de um golpe não demanda aprender a mexer em celulares, mas sim trazer a experiência e a sabedoria da idade que tanto ajudaram essa geração a reconhecer falsas promessas no mundo real, só que agora, orientada para filtrar o barulho digital. O barulho vem crescendo a cada dia, os golpistas utilizam a inteligência artificial para clonar a voz, a foto ou até mesmo o vídeo de um familiar querido, criando simulações perfeitas onde um falso filho ou neto chora e pede dinheiro urgente no WhatsApp. Outras modalidades comuns incluem falsos funcionários de instituições bancárias solicitando senhas, empréstimos consignados contratados sem autorização e links fraudulentos criados para atualizar cadastros ou desbloquear benefícios governamentais. A regra de ouro para o mundo digital é simples: desconfie de tudo o que provoca uma reação emocional imediata, seja ela de pavor, de revolta extrema ou de alegria excessiva. Se uma notícia faz o coração disparar, esse é o exato momento de parar. Antes de repassar aquela notícia alarmista para o grupo da família, vale a pena refletir se a notícia está sendo veiculada por jornais tradicionais de credibilidade ou apenas em sites desconhecidos com nomes estranhos. Além disso, consultar quem sabe, o Brasil conta com agências de checagem consolidadas, como a Lupa, o Aos Fatos e o Comprova, que investigam diariamente boatos de WhatsApp e redes sociais. Cuidar de si na internet hoje é um exercício de paciência e autoconhecimento, lembrando que o mundo virtual só tem o poder que decidimos dar a ele.