Ausência de mediação adulta transforma ferramentas poderosas em armadilhas de distração e riscos graves (FreePik) Se eu chegasse para você agora e perguntasse se teria coragem de entregar as chaves de um carro esportivo potente nas mãos de uma criança pequena, para que ela pudesse dirigir sozinha por uma rodovia movimentada em pleno feriado, a sua resposta seria um não imediato. Afinal, todos compreendemos os riscos físicos envolvidos nessa hipótese absurda. Pois bem, o recém-lançado Guia ABCD de Consciência Digital nos coloca diante de um espelho bastante desconfortável ao mostrar que muitos pais e responsáveis fazem exatamente isso todos os dias, mas de uma forma silenciosa e invisível, ao entregarem dispositivos conectados à internet e repletos de inteligência artificial (IA) sem qualquer tipo de orientação ou supervisão adequada para os seus filhos. Precisamos entender de uma vez por todas que o ambiente digital, profundamente moldado por algoritmos de recomendação e sistemas de IA generativa que decidem o que consumimos a cada segundo, é um oceano vasto e muitas vezes desconhecido que exige uma espécie de habilitação técnica e emocional para uma navegação minimamente segura. Esta iniciativa da Ação Brasileira para Consciência Digital (ABCD), que conta com o apoio institucional de peso da Unesco e do Criança Esperança, não deve ser lida apenas como uma simples cartilha de regras proibitivas, mas sim como um convite urgente para uma presença ativa dos adultos no mundo virtual das crianças. Enquanto os adultos correm freneticamente para se capacitar e não perderem relevância profissional, as crianças já nascem imersas em um ecossistema onde a IA dita as regras do entretenimento e da socialização, muitas vezes sem que haja um filtro crítico entre elas e o conteúdo consumido. Se estamos estudando tanto para otimizar lucros com algoritmos, por que não dedicamos o mesmo empenho para entender como esses mesmos algoritmos estão moldando a psique das novas gerações que passam horas diante de telas operadas por sistemas que elas nem sequer compreendem? O guia estabelece alguns passos fundamentais que servem como uma bússola para as famílias brasileiras e eu vou passar por alguns deles, começando pelo princípio básico de que não adianta exigir desconexão dos filhos se os próprios pais estão mergulhados em suas próprias telas durante o jantar ou nos momentos de lazer. O exemplo em casa é e sempre será a ferramenta pedagógica mais poderosa que possuímos, e estabelecer regras de uso que garantam benefícios sem comprometer a saúde mental e o sono deve ser uma prioridade absoluta para qualquer responsável que preze pelo equilíbrio emocional da casa. Não podemos ignorar as ferramentas tecnológicas de controle parental disponíveis atualmente, como o Google Family Link ou o Qustodio, que permitem configurar limites de tempo e privacidade que são vitais para supervisionar as atividades on-line sem necessariamente asfixiar a autonomia da criança. Outro ponto crucial mencionado pelo Guia é a necessidade de combinar regras simples e claras que independam da idade, como a classificação etária rigorosa para vídeos e jogos e a proibição de conversas privadas com desconhecidos, mantendo sempre um acesso contínuo e transparente ao dispositivo celular. Devemos ensinar sinais de alerta práticos sobre os perigos de pessoas que se passam por amigos na internet, mas que pedem segredo sobre a amizade, fazem elogios excessivos, enviam presentes virtuais em troca de fotos ou informações sensíveis e, por fim, mas não menos importante: precisamos estar vigilantes também em relação às plataformas de apostas e jogos de azar on-line, que utilizam algoritmos viciantes para atrair menores de idade em um ciclo perigoso que pode levar ao endividamento e a problemas psicológicos severos. Nós estamos operando ferramentas poderosas demais com critérios éticos e educacionais frágeis demais. Por isso, é hora de mudarmos a pergunta para que possamos, finalmente, mudar o resultado dessa jornada digital com nossas crianças e adolescentes.