O seu filho ou o seu neto está diante de uma questão difícil. Ele fotografa a página, envia para uma inteligência artificial e, segundos depois, recebe a resolução completa. Copia, fecha o caderno e anuncia: “Terminei”. Essa cena ajuda a entender um desafio que já faz parte da educação brasileira. Segundo o Pisa 2025, avaliação internacional coordenada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), 48% dos estudantes brasileiros de 15 anos relataram usar aplicativos de IA para ajudar a aprender pelo menos uma vez por semana. Só que existe uma diferença entre pedir uma explicação e encomendar a tarefa inteira, com tudo pronto para copiar. Na correria de casa, isso pode passar despercebido. Aprender envolve tentar, errar, testar outro caminho e entender por que uma solução funciona. Se toda dificuldade vira imediatamente uma pergunta para a IA, o estudante corre o risco de terceirizar justamente o esforço que precisava fazer. Por isso, uma orientação simples para filhos e netos é trocar “resolva esta questão” por “não me dê a resposta. Dê uma pista para eu tentar sozinho e espere minha tentativa”. Outro pedido útil é: “Vou explicar como pensei e você (IA) irá me mostrar em qual etapa eu me confundi”. A mudança parece pequena, mas muda o papel da ferramenta e o lugar do aluno na conversa. Alguns aplicativos oferecem recursos próprios para ajudar nesse processo. No ChatGPT, o modo de estudo pode fazer perguntas, explicar conceitos por etapas e verificar se o estudante entendeu, sem correr direto para a resposta. Em uma conversa comum, procure a opção “estudar” no menu “+”. Já no Gemini, a IA do Google, o recurso se chama “aprendizado guiado”. A proposta é dar uma mão no caminho, sem carregar o aluno no colo. Independentemente do modo utilizado, o estudante continua precisando participar, questionar e conferir porque a inteligência artificial também inventa. É o que chamamos de “alucinação”. A ferramenta pode apresentar uma data incorreta, atribuir uma frase à pessoa errada ou citar uma pesquisa inexistente, e faz isso com uma linguagem tão convincente que o erro ganha aparência de certeza. Pedir fontes é um bom começo, além disso, abrir os links e conferir se eles realmente sustentam a resposta é a parte que não dá para pular. Perguntar apenas “você tem certeza?” para a IA não substitui uma verificação. Às vezes, a IA só confirma o erro com ainda mais convicção. Para pais e avós, acompanhar esse processo não exige fazer uma pós-graduação em aplicativos. Pode começar com uma pergunta antes de dormir: “O que você entendeu depois de usar a IA?”. *Professora e Especialista em IA e Tecnologia gabriela@wmorais.com.br