(Alexsander Ferraz/AT) O processo de transformação da matriz de produção e consumo de energia vem sendo marcado pela substituição progressiva dos combustíveis fósseis – como carvão, petróleo e gás natural – por fontes renováveis e de baixo carbono, como solar, eólica, biomassa e hidrogênio verde. Considerando que o setor energético é responsável por cerca de 75% das emissões globais de gases de efeito estufa (quando se considera geração de eletricidade, calor, transporte, construções e emissões fugitivas de combustíveis fósseis), vislumbra-se uma mudança estrutural de longo prazo, que envolve não apenas a diversificação tecnológica, mas também inovação, políticas públicas eficazes, investimentos em infraestrutura e adaptação dos modelos de consumo e produção. Esse movimento de transição busca conciliar segurança energética, redução de emissões e competitividade econômica. Nesse contexto, o gás natural liquefeito (GNL) se apresenta como um vetor estratégico, atuando como combustível ponte entre a dependência de combustíveis fósseis mais poluentes e a consolidação das energias renováveis. Esse gás natural é resfriado a -162°C, tornando-se, portanto, líquido. Nesse estado, seu volume é reduzido em até 600 vezes, o que facilita o transporte e armazenamento, especialmente em locais sem gasodutos. Além da flexibilidade logística, ele pode ser utilizado em geração elétrica, indústria, transporte rodoviário e marítimo. Por ser derivado do gás natural, o GNL ainda gera emissões durante sua combustão. A cadeia de produção, liquefação, transporte e regaseificação pode liberar metano fugitivo. Entretanto, é um combustível fóssil menos poluente do que os demais, emitindo até 50% menos CO2 do que o carvão e cerca de 30% menos que o óleo pesado, produzindo menos poluentes atmosféricos locais. Por isso, é tido como uma excelente opção na transição energética, sendo mais eficiente e flexível, inclusive como solução complementar a outras alternativas, como a solar e a eólica. A utilização do GNL nessa fase de transição também possibilita a diversificação das matrizes de energia, podendo ser importado de diferentes regiões, reduzindo dependência de fornecedores únicos e garantindo a estabilidade do sistema elétrico. No transporte, o papel do gás natural liquefeito é de grande importância. Nas rodovias, já é uma alternativa competitiva ao diesel em alguns mercados. Na indústria naval, o uso de GNL como combustível marítimo ajuda a iniciar o atendimento das exigências ambientais da Organização Marítima Internacional (IMO, na sigla em inglês). Ressalte-se que a IMO adotou estratégia de descarbonização, que prevê a redução da intensidade de carbono do transporte marítimo internacional em pelo menos 40% até 2030 (comparado a 2008), devendo alcançar o net zero até 2050. Importa relembrar que o papel do GNL na transição energética depende de fatores como políticas públicas e regulação, por meio do incentivo à substituição de combustíveis mais poluentes e com maior pegada de carbono; inovação tecnológica, com a redução de emissões de metano na cadeia e integração com o hidrogênio; e a geopolítica energética, com o uso do GNL para reduzir dependências regionais, especialmente em cenários de crise de suprimento. Percebe-se, portanto, que o GNL desempenha um papel relevante como etapa de transição, contribuindo para a evolução do setor rumo a tecnologias integralmente limpas e se consolidando como um combustível estratégico no curto e médio prazo para frotas marítimas e frotas pesadas.