(Alexsander Ferraz/ AT) Três de maio de 1938, Hitler visita Roma para selar o diabólico pacto nazifascista. À Piazza Del Popolo acorre a massa de séquitos do bufão Mussolini para saudar o führer, que levaria a pátria de Petrarca e Dante ao abismo da barbárie. Num conjunto de apartamentos soturnamente cinzento, típicos da arquitetura do duce, dois solitários personagens se acumpliciam, vítimas do preconceito falocrático: uma mulher, mãe servil e esposa submissa, e um homem sensível, solteiro, artista, homossexual. Uso o termo marcado pela institucionalização do desejo no século 19, como se o amor entre duas pessoas do mesmo sexo se reduzisse ao corpo e a jogos da carne. Amor é de alma, não genitália, tão somente. A trama estrategicamente minimalista criada pelo diretor Ettore Scola gestou o maior clássico italiano nos anos 70: Um Dia Muito Especial, com o arquetípico casal Sophia Loren e Marcelo Mastroianni, lindos e talentosos — isso é possível. A tirania fascista prega a família prototípica: homem pateticamente viril, garanhão, cafajeste e doentiamente machista. A direita sataniza os afetos, culpabiliza o corpo, é naturalmente misógina. É preciso carregar nos advérbios quando se descreve o machismo e a homofobia, irmãos siameses. Sob as botas da SS e da Gestapo, sob o manto de aiatolás assassinos de mulheres e enforcadores de gays, pululam entendidos enrustidos. Os fascismos e teocracias vivem nas sombras reversas da liberdade que os gays exercem ao não se submeter à família burguesa, normatizada pelo capitalismo. Hitler, subindo ao poder, executou todo um batalhão miliciano de gays, comandado por seu assecla Ernest Rohm na Noite dos Longos Punhais, logo ao subir ao poder. A CIA, num detalhado relatório, revela a homossexualidade do novo líder iraniano Mojtaba. Sombra!, leitores; sombras e recônditos temores. Voltemos ao clássico nascido clássico de Scola. Revejo-o, faz cinquenta anos o filme, insuperável em atuação e atmosfera: só os dois e o que basta para penetrarmos na constituição reacionária do núcleo familiar, fonte de todas as neuroses, amplificadas pela nossa sociedade nela ancorada. Assisti à ótima adaptação para o nosso teatro, com Glória Menezes e Tarcísio Meira, nos anos 90. Agora mesmo, no glorioso Teatro Sergio Cardoso, vibrei com a revisita que Maria Casadevall e Reynaldo Gianecchini, sob direção de Alexandre Reinecke, perfazem na pedagógica dramaturgia levada originalmente às telas. Atmosfera, ambiência, diálogos cortantes, estrutura narrativa, tudo no osso, na essencialidade, a servir ao ofício da interpretação de sugestões e matizes do que seja ser mulher, homem, humano, na integralidade acima dos papéis impingidos. Personagens sobrepõem-se a caricaturas; estereótipos são desmontados. Ali, desnudos pelo reconhecimento através da educação mútua e da revelação das estruturas de submissão, eles se agigantam plenos perante o martírio da História. Uma fala de Gabriele, sempre o anjo revelador, serve de senha à sôfrega e naïf Antonieta: “Neste regime, um homem precisa ser pai, marido e soldado; não sou nenhum deles”. Gabriele é diferente e, na sua especificidade, ilumina em Antonieta a mulher acima dos atributos de escrava do lar e procriadora dum macho bestial que nada entende de mulheres. A peça só cresce, infelizmente, como antídoto contra a epidemia de feminicídios. Será que um bruto fardado intitulando-se macho alfa seria o melhor exemplo de instrutor de escolas cívicas? Neste sábado (4) e domingo (5), em Santos, no Teatro Municipal, temos esse manifesto que deveria ser levado, aí sim, às escolas e universidades, para conhecermos o que é ser Homem de verdade!