Naquele momento, em 1932, São Paulo perdia a batalha nas trincheiras e ganharia a guerra da educação. Aos 100 anos, em Paris, o maior antropólogo do século, Claude Lévi-Strauss, decisivo pensador do estruturalismo, refletiria décadas depois sobre sua passagem por Santos, tão lindamente narrada no clássico Tristes Trópicos. Gostara mais da paisagem entre o cais e a Pauliceia do que da Baía de Guanabara, quando veio ser professor visitante e fundador da Universidade de São Paulo. Depois do conflito contra Vargas, as esclarecidas elites cafeeiras perceberam que o Estado oprimido pelo caudilho deveria encontrar saídas estruturais para o desenvolvimento pela educação, pelo conhecimento. Só formação humana redime integralmente. A família Mesquita, por meio de um esclarecido governante, Armando de Salles Oliveira, depois de ajudar a criar a USP, investe maciçamente em grupos escolares e ginásios públicos. A educação era fragmentada em pequenas instituições de cunho particular sem nenhum aparato pedagógico formal, mais benemerência do que aporte formativo. O ensino oficial pouco ia além da Capital Federal e de raras congregações religiosas, principalmente para o diploma de moços beneficiados pelo coronelismo vigente. Oliveira, o governador eleito pela Constituinte vitoriosa de 1934, criou 15 grandes ginásios no Interior e na Capital, escolhendo Santos como modelo de parceria público-privada pioneira. A companhia anglo-canadense City cedeu um terreno encravado no ascendente Boqueirão, em convênio com a Prefeitura, na figura de Aristides Bastos Machado, e nascia o Canadá. Moldado nos liceus franceses, contava com salas de Química e Física, orientação para a ginástica, com farta biblioteca e tendo ao centro um anfiteatro todo cravejado de arquitetura delicadamente art déco adaptada à inspiração brasiliana: frisos, adereços de bronze na sobranceira fachada de linhas retas escoradas por ângulos sutis ziguezagueantes adornados nas platibandas com motivos vegetais. Nos ouropéis, a rubiácea incrustada que sustentava nossa riqueza deslizando no Porto, que a escoava aos quatro cantos. O mármore por dentro, onipresente no chão sagrado, sustendo gerações de destinos, seguia pelas escadarias num sóbrio ondear de vidas cruzadas cúmplices pela eternidade a ecoar: ‘Eu estive lá!’, ‘Por ali também me forjei!’. O Canadá, dito assim com intimidade, deu-nos credenciais pela qualidade dos mestres, pelas origens múltiplas dos alunos, pelo liberalismo laico da origem burguesa, da franco-maçonaria juvenil: onde quer que nos encontremos, antes de santenses, nos identificamos canadenses. O Canadá, aliás, era bem a Santos cosmopolita transplantando ao solo do porto mítico os chapéus-de-sol onipresentes, as casuarinas, pinheirinhos tórridos e o onipresente relógio da Western Telegraph. O Canadá das bandas e fanfarras, do Grêmio Vicente de Carvalho, dos uniformes estilizados aparentando-nos com Eton ou Oxford brasílicos. O Canadá que me antecedeu com alunos que admirava a distância e se tornaram meus amigos: doutor Corvo e Telma de Souza. O Canadá de professores que me fizeram a cabeça para sempre seguir a minha: João Itagiba, Ada, Maria Helena Caruso. O Canadá abatido pelas brumas da ditadura, o Canadá que precisa reencontrar-se agora com a Cidade, preservado e integrado ao convívio da comunidade. Por que no Brasil os velhos colégios não têm uso cultural e extra-curricular aos finais de semana? Quando penso no Canadá, não penso, sinto. Vem-me a sensação do poema de Longfellow: “A vontade de um menino é a vontade de vento/E os pensamentos da juventude são pensamentos longos, muito longos”. Vou pelos meandros da alma restituindo cada passo de guardador de rebanhos a me sentar pastoreando meus versos, recolhendo o pátio, a biblioteca oásis num canto do recreio, o professor Negrelli, que me sabia feito para o intelecto mais do que aos exaustivos treinos. E os amigos de jornada até hoje: o Messias, do Lanches Praia, desde o primário, o vizinho de Bolívar Braz Antunes Mattos e os idealistas que até hoje mantêm a chama do 11 de agosto depois de 92 anos. Até o tal bullying, se existia, parecia doce. Era meu vento noroeste. *Escritor, membro das academias de Letras de Santos e Praia Grande e curador da Casa das Culturas de Santos flavioamoreira@uol.com.br