(Reprodução/ Pixabay) “Filhos... Filhos? Melhor não tê-los!/Mas se não os temos/Como sabê-lo?”. Assim começa o já célebre poema de Vinicius de Moraes com essa dúvida, que só cresce para as gerações Y e Z, nascidas entre 1980 e 2000. Fascinam-me as mudanças comportamentais dos recém-chegados a este mundo convulso. A juventude sempre nos parece tão desprovida de perspectivas, mas vai imprimindo sua marca. Não querem mais ter carro, sem preocupação em amealhar patrimônio. Nômade e digital, não privilegia uniões estáveis e, decididamente, vai se recusando a ter filhos. Não faltam movimentos filosóficos antinatalistas, especialmente dentre a vanguarda europeia. Em países como França e Bélgica, já se institui o Dia dos Não Pais. A Itália e o Japão quase vão zerando suas taxas, e a China não sabe mais o que fazer pela natalidade. Já fiz minha parte, seguindo o mestre Machado de Assis: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”. Não faço proselitismo de uma decisão pessoal, mas confesso, admiro e entendo algum saudável individualismo da moçada. Por que antecipar sua prole se estão envolvidos em projetos profissionais e afetivos com sua dose de ímpeto experimental? São existencialistas por nascença! Apostam nas mudanças, não se prendem a relacionamentos por convenção e rompem paradigmas como atribuir às mulheres a maternidade como padrão universal. É preciso dizer que ter filhos é a maior responsabilidade dum ser? Gosto de ler os experts, mas não perco a voz do povo e a sabedoria do vulgo de balcão. Certa vez, alguém observou, com gaiata inteligência, que, se até para vender pipoca se exige licença, que responsabilidade tem quem põe filho no mundo! Frustram-se os não vovôs. Mas não se frustrem, pais despreparados, trazendo a um planeta cansado filhos mal desejados. Não podemos, por sentimentalismo, impor decisões que não estejam lastreadas pela suprema consciência. Nem trato aqui das escandalosas taxas de gravidez entre adolescentes no Brasil. Aí entramos no campo da saúde pública. Reflito sobre a tranquilidade de casais que tacitamente optam em não privilegiar ter filhos no instante em que solidificam seus destinos em outras dimensões de suas individualidades. A renúncia, por vezes, se configura um ato de amor. Olhe o cenário global a sua volta. Os jovens têm a visão de não se render à naturalidade da paternidade, prorrogando-a para o momento correto ou, mesmo, nunca. Não se pergunta mais por que não ter filhos. O egoísmo de tê-los a todo custo dá lugar ao de não os ter. Não se renda ao senso comum. Por delicadeza, vidas se perdem também. *Escritor, membro das academias de Letras de Santos e Praia Grande e curador da Casa das Culturas de Santos: flavioamoreira@uol.com.br