A História e seu sentido sempre foram material para incessante reflexão. Razão e direção, propósito e seres providenciais para o ‘espírito do tempo’, desde Hegel, nos dão pistas sobre o processo e alguma objetividade pelo porvir de justiça e liberdade para todos. Telma de Souza nos deixou num momento simbólico: a trajetória cumprida na vitória pela democracia. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Filha única de um vereador advindo das classes trabalhadoras, típico representante do velho trabalhismo com ares assistencialistas, cresceu sob a égide da insurgência de costumes e lutas da esquerda libertária de 68 e foi divisora de águas, rompendo o clientelismo que sobreviveu ao Golpe de 64, invertendo todas as lógicas acomodadas pelas sombras. Mulher de comportamento radicalmente independente, surgida numa legenda inovadora da esquerda, com fortes componentes da Teologia da Libertação e avessa ao centralismo do velho partidão, lutou pela autonomia e surpreendeu as elites da terra. Telma soava um ‘mix’ de Rosa Luxemburgo com Angela Davis: caiçara raiz, leitora voraz, cosmopolita, antecipou-nos pautas antirracistas e anti-homofóbicas muito antes de se tornarem força. Telma encarnava tudo aquilo que chamamos ‘fora da casinha’: pela inclusão sem trégua dos chamados ‘loucos’ do Anchieta, dos enfermos de uma epidemia com forte acento preconceituoso, chamados aidéticos, dos beneficiários de transporte coletivo, dos doqueiros demitidos pelo blefe ‘collorido’. Telma peitou oligarquias e monopólios consolidados. É preciso um brado rotundo pelo reconhecimento de Telma e David (Capistrano) como estrelas internacionais da incorporação dum modelo de saúde que se naturalizou permanente nas policlínicas, na bandeira antimanicomial, na abordagem humanitária da drogadição e na cultura, como fator de resistência aos microfascismos. Depois de Telma, tornou-se impossível pensar orla, bairros e periferia sem a preocupação com a democratização de serviços públicos aos outrora excluídos, anônimos, invisíveis. Construímos amizade no universo que nos unia: as sessões de filmes de Bergman e Fellini, promovidas por Maurice Legeard; na voracidade pelos livros de Cortázar e Garcia Márquez; pelas noites de conversa no Heinz e no Bar da Praia. Conheci Telma porque era um ‘acaso objetivo’: tinham que ser dois ‘undergrounds’ unidos numa sociedade ‘enquadrada’. Notívagos, nossas conversas telefônicas iam do Tao Te King à descoberta de Saramago nos anos oitenta. Telma favoreceu-se de um componente que parece ressurgir agora, com o triunfo das ruas e redes contra o golpismo: a burguesia progressista. Telma se socorreu da fina flor de intelectuais, artistas, das universidades, com um secretariado à altura de ministério. Fui sua última visita, quinze dias antes da partida, acompanhado de seu assessor Cadu Duarte. Sempre morando na casa meiga da Aureliano Coutinho, a ex-prefeita lutou até pela árvore da sua calçada. Telma tinha a dimensão poética da política, visionária, reconhecia nas trincheiras eleitorais a possibilidade das grandes mutações humanas. Nunca se amesquinhou aos conchavos, nunca se aviltou com a abordagem rasteira dos grandes temas: sua escala era o planeta pensado pela Cidade. Na última passeata antes do pleito, monumental desfile de esperança por sete quarteirões da Conselheiro Nébias, entrevi um sempre elegante senhor democrata que me emocionou entre a mocidade engajada: dr. Manuel Ribeiro Jr., o dr. Manecão, policial histórico que nunca conjugou repressão ao crime com truculência. Jornalista, amigo de Covas e de Telma, que me fez crer que a convergência do centro, da direita lúcida e da esquerda pode ser a chave contra o horror extremista que ameaça a humanidade e o planeta. Que linda homenagem do prefeito Rogério Santos a Telma, que muito o estimava: um Hospital Pediátrico na Zona Noroeste. Futuro da gente que dá o melhor em prol da almejada igualdade, justamente compartilhada. Telma presente!