Santos foi berço de três imortais da Academia Brasileira de Letras: Vicente de Carvalho, Ribeiro Couto e Roberto Cochrane Simonsen. O Poeta do Mar assumiu por carta de procuração em 1910. Ribeiro Couto, eleito em 1934, aos 34 anos. Simonsen, pioneiro da literatura econômica brasileira, morreu fulminado por ataque cardíaco ao ler seu discurso em 1947. Foi a sessão mais dramática do Petit Trianon carioca e tão bem relatada na biografia de Guimarães Rosa por Leonencio Nossa. Rosa morreria três dias depois de empossado, em 1967, nunca esquecendo o desfecho do santense ilustre. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Muito estranhos a pouca consideração nacional com José Bonifácio, para com os irmãos Alexandre e Bartolomeu de Gusmão, e o desconhecimento pátrio do mais influente pensador da agricultura, do industrialismo e da formação técnica do operariado, na primeira década do século 20: Simonsen. Simonsen deve ser considerado o protótipo do empresário moderno brasileiro: construtor, financista, mas acima de tudo um executor de metas sociais, planificador urbano, empreendedor de metas sistêmicas de desenvolvimento. Ao empresário se põe o ‘plus’ orgânico do negociante, encarnado no seu contemporâneo, o conde Matarazzo. Simonsen, mix de visionário mercantil e intelectual, foi um Mauá com a visão historiográfica de Varnhagen. Agora, em setembro, comemoramos os 80 anos do Sesc. Vocês já imaginaram o Brasil sem a capilaridade executora e mobilizadora do Sistema S? Leitor de Platão e dos iluministas, Simonsen moldou uma rede que aliava a excelência de uma elite pensante à preocupação com a formação de quadros técnicos para suprir a demanda por um predicado que, até hoje, nos angustia: produtividade! Simonsen estaria decepcionado com a ausência de políticas para dominar a cadeia logística e humana para sustentar o fogo competitivo exigido pela inteligência artificial. Estaria bradando por estratégias consistentes para suprir de valor agregado nosso potencial em minerais raros. Filho de ingleses, nascido em 1889, fruto e símbolo da República, estudante do Tarquínio Silva, formado na Politécnica, voltou ao porto mítico para trabalhar na Southern Brazilian Railway, futura Sorocabana, e na Prefeitura de Santos. Em 1912, funda a Companhia Construtora de Santos, que seria hub de nova concepção urbanística ao amadorismo que levava a engenharia e a arquitetura incipientes a um modelo empírico, e mesmo romântico, de construção por empreitada, sem organicidade de impacto ou visão amplificada em busca de uma fisionomia citadina harmoniosa. Antes do salto nacional, deixa um rastro até hoje marcante do semblante da terra natal: erige os mais sólidos armazéns dos Guinle e nos deixa as belíssimas Associação Comercial e Bolsa de Café, dando início a uma especialidade que o marcaria — a engenharia militar, com a Base de Aviação Naval, no bucólico distrito de Guarujá. Simonsen seria catapultado ao formar uma trindade de idealistas. Seu amigo e sócio, engenheiro Pandiá Calógeras, torna-se o primeiro e único civil a assumir o Ministério da Guerra, no governo Epitácio Pessoa. Simonsen seria responsável pela construção de trinta quartéis, nos moldes mais exigentes de concepção, em sintonia com os pressupostos de ocupação do território do legendário Rondon. Concomitantemente, funda uma rede de armazenamento na terra do desperdício, antecipando o aparato de agronegócios: Companhia Frigorífica de Santos e Barretos, a Companhia Nacional da Borracha e o Sindicato de Combustíveis Líquidos, culminando numa associação patronal modernista, o Ciesp, desvinculando-se do ranço do baronato reacionário. Simonsen democrata, anticomunista, leitor atento de Marx, defensor de Vargas em 1930, constitucionalista em 1932 e implementador das primeiras parcerias publico-privadas com Getulio, impulsionou a criação do IBC e do Instituto do Açúcar e do Álcool. Muito de sua saga foi contada pelo primeiro presidente da Bolsa a este poeta quando jovem, na Rádio Clube de Santos: Hermenegildo da Rocha Brito. Camaradas, inteligência artificial nenhuma supera relato oral, curiosidade e memória. Saúdo-te, Simonsen, como saúdo o Sesc, heroica instituição dum Brasil que dá certo!