(Pixabay) Leonêncio Nossa ousou a contação de percurso de quem tudo nomeava. Acabado depois de decantada pesquisa, mestre em História e Política, doutor em Cultura. Já tinha cismado com o talento do Nossa nas trajetórias do livrão sobre Roberto Marinho. João Guimarães Rosa, Biografia, que em nada apouca a infância no Cordisburgo. Rosa médico, embaixador, salvante de judeus do horror; Rosa peleando neologismos, ciscando modos de dizer parindo constelações de signos e ainda ruminando estórias no faroeste mineiro. Rosa que dá emoção no parto de ‘satoris’, aquelas sabedorias búdicas do povo de dentro do mundo denso das grotas. Parcimônia alcunhar, escritor de gênio: escritor de verdade já não é pouca; gênio carece ser um ou outro num século. Talvez Clarice ou Lima Barreto. Contar do regional, falar do sertanejo, o santense Valdomiro Silveira, Afonso Arinos, Monteiro Lobato eram mestres, mas Rosa conta no patamar universal do dizer traduzido. Rosa em lombo de burro, aboiando rebanho, o Nossa pega a mão com o erudito farejador de luminescências fazendo festa com papel e lápis. Diz Barthes: “a escritura faz do saber uma festa”. Padre Vieira e Euclides da Cunha com o Rosa compõem sagrada trindade desse nosso quinto império que um dia virá: literatura úmida no árido, escritores esponjando e garimpando de aluvião no cerne do senso. Temes o depauperar do idioma, leitor? Lê Rosa! A IA ameaça terceirizando corações e mentes? Lê Rosa! Leonêncio, rosiano por natureza, dá contornos mais nítidos, indícios e pormenores do gigante em gênese. Rosa encontra Drummond em Copacabana, desterrados das Geraes na praia e tasca de chofre: “A realidade, Carlos, para mim é mágica”. Redarguindo o itabirano: “Este simples encontro que estamos tendo agora não aconteceu por acaso, está cheio de significação”. Nossa reproduz cartas, ecoa desesperos do demiurgo ourives poliglota. A relação de Rosa com o best-seller Jorge Amado, o Guima envolvido com papelório de fronteiras no Itamaraty para pagar as contas, e aquele que sentencia: “na vida é preciso ter coragem”! Incrível que lendo o Nossa, descobrimos que o Rosa era Rosa até mandando recado para o dono da venda ou cartão postal prometendo brinquedo novo para a filha. Rosa não era persona, galáxias em forma de homem feito.