(Sílvio Luiz/ AT) A virtude dos governantes é um dos conceitos mais lucubrados nos séculos de filosofia política: de Platão, em A República, à primazia do bem comum com justiça, em Aristóteles, tendo apogeu no século 16 com Maquiavel e Montaigne. Enquanto o florentino privilegia a astúcia e o pragmatismo exacerbado, o mestre prefeito de Bordeaux defende que o governante nunca deve se afastar da ética, do seu caráter humano e da transparência. Montaigne nos é farol para tudo na vida. Semana passada, a Cidade foi surpreendida com um pronunciamento humaníssimo do prefeito Rogério Santos sobre o início de sua batalha oncológica. Poderia soar um comportamento corriqueiro, não fosse até bem pouco, na história do poder, usual a prática de esconder episódios de vulnerabilidade. Os reis europeus do medievo não admitiam colocar em questão seu poder divino com a revelação de suas moléstias. Napoleão posava com a mão sobre o colete ocultando sua gastrite crônica, adquirida com a insalubridade em campanhas militares, e mesmo Churchill, um fenômeno clínico, pelo apego ao vinho e charutos, escamoteou suas crises depressivas e físicas até os mais improváveis noventa anos. No Brasil, Juscelino exigiu sigilo sobre duas crises cardíacas, e não foi disso que terminou abatido. Foi só Miterrand quem, de maneira inédita, expôs aberta e tranquilamente seu convívio com o câncer, que não o impediria de completar dois mandatos de oito anos. A coragem é boa terapia para resistir e sobreviver. Mark Twain cravou, certeiro: “Coragem é resistência ao medo, domínio do medo, e não, ausência do medo”. Quanta grandeza compartilhada aos governados, o exemplo de sinceridade e firmeza nas adversidades dos soberanos. Quem foi eleito em meio ao cataclismo sanitário da covid-19, e se comportou de modo enérgico e eficaz, nacionalmente reconhecido, como Rogério foi, só poderia ser coerente no trato particular, com o destemor com que administrou um mal coletivo. A enorme rede de solidariedade ao prefeito expressa a empatia que ele mesmo exerce pelo temperamento, em ação pública. No dia 13 de junho de 2025, ouvi atento em discurso o governador, distante do meu pensamento ideológico, mas que respeito, revelar um traço raro entre políticos, ao ressaltar o bom desempenho como gestor associado ao fato de Rogério ser um administrador amoroso. Essa amorosidade na governança tem se destacado como grande profilaxia em tempos de ira e intransigência polarizada. A tranquila interinidade da operosa vice-prefeita Audrey Kleys é outro sintoma da plena sintonia da chapa sufragada com o gabinete, composto de modo harmônico e um secretariado azeitado, em sua interação. Imaginem que nos idos de abril de 1967, durante licença por viagem do prefeito Silvio Fernandes Lopes, seu vice substituiu grande parte do secretariado e chefia de gabinete. E o vice era um gigante do Direito! Francisco Prado, que convocou alunos brilhantes para a empreitada, que se destacariam no cenário político santense. Está aí o querido Manecão para contar o hoje hilário episódio. Nossa institucionalidade é fator de pujança ao Município. Discernimento e maturidade são quase tudo. Falando em interinidade, foi durante a convalescença coronária do general Figueiredo que Santos ganhou sua autonomia, por decreto do vice em exercício na Presidência, Aureliano Chaves. Eles já nem se falavam. Quando os bravos lutam publicamente, reconhecem publicamente a dimensão de seu afeto correspondido. A junção de afeto com a noção de provisoriedade do poder dá frutos permanentes de bem-aventurança. Por mais percalços que a vida nos apresente, quando temos motivos para vencê-los, a força se apresenta. O amigo Rogério construiu linda família, tem um grande amor, assim feito eu, filho da brava gente lusitana, e uma Cidade que o ama, esperando. Quando nós temos porquês para lutar, sempre suportamos o como para alcançar a vitória diante dos desafios. Rogério é caso raro de compromisso público sem apego, perseguidor de ideais despojado das prisões do ego, um administrador perfeccionista que não se poupa, sem nunca deixar para trás as coisas e pessoas que ama. Permita-me, Camões, mudar teu verso: “O forte rei faz forte a sua gente”. Força, meu irmão! Será também a nossa força!