(Reprodução) Foi na Holanda gloriosa do século de ouro, o 17, que surgiu o capitalismo, as bolsas de valores, a Companhia das Índias e o olhar de ver além dos velhos preceitos. O humanismo coroava o Renascimento, com Erasmo de Roterdã, levava às revoluções cosmológicas de Giordano Bruno e Galileu e, alimentado-se da solaridade de Florença, os Países Baixos anunciavam as luzes da razão. Um judeu português, Spinoza é acolhido em Amsterdã, e Rembrandt desnudou as galáxias do âmago habitando o coração dos homens. No mesmo período dos mil e seiscentos, um padre visionário percorria os salões do Vaticano, as cátedras de Coimbra, as selvas brasílicas bradando: “Não basta ver para ver, é necessário olhar para o que se vê. Não vemos as coisas que vemos; porque não olhamos para elas. Vemo-las sem advertências e sem atenção, e a mesma desatenção é a cegueira da vista” (Padre Antônio Vieira). A trajetória de Rembrandt é uma epopeia desse olhar em que se alternam observado e observador. Vemos o mundo sabendo que ele nos olha refletido. Conforme a régua, as medidas de impressão se expandem ou contraem. Somos o que olhamos e regulamos nossas paixões conforme as medidas de nossa sensibilidade e a potência de nos fazermos tristes ou alegres para a vida, pelo desenvolvimento da sabedoria. Rembrandt e Spinoza, coetâneos nessa amada Holanda até hoje tolerante e aberta, não levavam o ‘livre arbítrio’ em boa conta, mas foram campeões em resignação e superação. Muito tempo demoraria para alcançarmos os conceitos de hereditariedade e o advento do DNA, mas Rembrandt colocou a medicina nos píncaros, com sua célebre tela A Lição de Anatomia. Ainda que cientistas reconheçam alguns errinhos nos nervos expostos em dissecação, espanta os que defrontam o quadro no charmoso Museu Mauritshuis, de Haia. As aulas de dissecação eram públicas. A curiosidade sobre a fisiologia que vencera o obscurantismo da Igreja era imensa! Se Shakespeare aflorou o que chamamos condição humana, Rembrandt eviscerou do corpo, ao coração do espírito, nossa solitude de testemunhas do universo. Rembrandt, desprovido de qualquer preconceito, precisava de conhecimentos todos para pintar. Perdeu três filhos, casou com a amada Saskia, gastou tudo que tinha ou não tinha com antiguidades egípcias, estatuária grega, vasos chineses, turbantes otomanos; criou um ateliê forrado de objetos de inspiração, vivia em luxo generoso para saciar sua volúpia em olhar aos quatro cantos, vindos de Java, Cantão, Caribe ou do Recife de Nassau. Chegando aos raros sessenta anos de então, só tinha sua amantíssima Hendricjke e o filho Titus segurando seus ímpetos boêmios. Morre pintando na bancarrota, só com a roupa do corpo e os apetrechos de criação. Como Rembrandt resistiu? Lembrai de Nietszche, caro leitor: “Aquele que tem um ‘porque’ para viver, pode suportar quase qualquer ‘como”. Poeta ou pintor, quem tem arte, tem força. Quando em Amsterdã, procurem conhecer a linda vivenda do mestre, comprada nas vacas gordas; a casa virou Museu Rembrandt e guarda o santuário refeito de seu paraíso particular. Sai-se de um Rembrandt siderado, vai-se ao charmoso Café Schiller, ali atrás, toma-se a sacrossanta cerveja holandesa e olha-se o céu entre os canais. Como diria Godard, viver a vida. Detalhe: o pintor escolheu viver em pleno bairro judeu, quando a Holanda era refúgio a perseguidos pelas reformas e contra-reformas das sombras. Mas uma boa nova, uma estupenda exposição de Rembrandt no Centro Cultural da Caixa, na Praça da Sé, vos espera; tiveram a fineza de prorrogar a mostra de águas-fortes do mestre até 25 de outubro. Grátis e de sair chorando de admiração e ruborizar IA. Rembrandt vai te ajudar a olhar e a olhar-te. Vá à Caixa em Sampa! O olhar te espera! A vista, a visão, janela da psique, mediadora de sinapses pelo miraculoso ocular, como diz o mestre Colombo Barbosa, é o filtro que nos coroa de encantamento. Como diz Genet, Rembrandt nos ensina a dignidade de cada coisa a ser vislumbrada. Olhar também se aprende.