A abertura do Festival Ibero-Americano Mirada, promovido pelo Sesc, foi uma ótima oportunidade de rastrear a produção teatral latino-americana linkada às artes cênicas das matrizes ibéricas, que transplantaram aqui toda a tradição de Gil Vicente e Calderón de La Barca. Bom momento para rever protagonistas da cena cultural na Baixada em conexão com o melhor do mundo. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Nossa vocação é cosmopolita, carregamos o sentimento atlântico do mundo. E recordo que o inesquecível Danilo Santos de Miranda, depois de a Espanha escolher Cádiz como contrapartida europeia para sediar o festival, de pronto pensou no mítico Porto de Santos para fazê-lo no Brasil. Ao chegar com a querida amiga poeta lusitana Teresa Teixeira, do Porto,nos deparamos com uma simpática jovem portando um cartaz: “Preciso de um ingresso”. Imagino quantas autoridades, quantos representantes de classe, quantos burocratas ali acorrem por dever de ofício. Salomonicamente, aquela mocinha deveria ganhar lugar de destaque por representar desde as ágoras gregas o sacrossanto público de teatro. Com boca cheia, assim é o chão sagrado que resiste e supera todas as tecnologias: o teatro e sua catártica assistência. Recordo o quanto já partilhei a mesma voracidade. Assistir a Fragmentos de um Discurso Amoroso, de Barthes, com Antonio Fagundes em 1988 e dirigido por Ulysses Cruz, foi-me um parto tão epifânico quanto, no Rio, ver Fernanda Montenegro pela primeira vez em As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant, do gênio alemão Fassbinder, em 1982. Ainda no Rio, fui a tempo de presenciar madame Henriette Morineau em cena no clássico americano Ensina-me a Viver, de Collin Higgins. O lindinho Teatro do Copacabana Palace levava Diogo Vilela a contracenar com a diva francesa, depois substituída pela mãe do teatro infantil no Brasil, Maria Clara Machado, autora de Pluft, iniciação de qualquer companhia de encantos. No ótimo exercício de sonhar com o que não vivi, penso o deslumbre em ver Cacilda Becker em Quatro Paredes, de Sartre, com Sérgio Cardoso e Nidia Lícia ou Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, com Walmor Chagas. Cacilda, tão santense quanto a Rua do Sol onde viveu, na Encruzilhada, ou a Alameda dos Sonhos, seu caminho para a praia coalhado de jambolões, no Canal 3. Nunca deixei escapar ao mestre e amigo Antônio Abujamra admiração pela peça Os Efeitos dos Raios Gama nas Margaridas do Campo, de Paul Zidel, que ele dirigiu tendo Nicette Bruno com a estreia da menina Beth Goulart, que está já completando mais de 50 anos de carreira! Recomendo: não percam Beth conduzindo um lindo monólogo, Simplesmente Eu, Clarice Lispector, em Sampa! Carrego emocionado o mesmo sentimento que move a mocinha na porta do Sesc: “Eu quero um ingresso!”. Com tanto burburinho, tantas redes antissociais, tanto niilismo em nome da eficiência e do consumo, fecho os olhos em meio a tanta falação e me atenho ao osso do essencial da existência: viver em estado de poesia, sentir o teatro redenção ambulante, render-se à fúria de Hamlet ou ao grito de Blanche Dubois ecoando Oscar Wilde: “Todos estamos jogados na sarjeta, mas alguns de nós miram as estrelas!”. Nos 2 mil dias da Casa das Culturas, nosso desafio é fazer do espaço mágico mais e mais um laboratório de dramaturgia. Ao meu lado, espreito os imensos Claudia Alonso e Renato Di Renzo repentindo ser possível: eles, imbuídos de coragem insana, fazem teatro para o mundo a partir de Santos resgatando pessoas, erigindo energias e campos de forças insondáveis ao olhares acomodados. Na Casa, já encenamos Brecht, Artaud, Gilson de Melo Barros, Beto Massoni, Maria Tornatore e Plínio Marcos. Em 3 outubro, começaremos um ciclo de leituras dramáticas com um monólogo deste poeta que vos convoca à arte: Clarice Lispector, Roteiro do Insondável, com interpretação do grande ator Daniel Morozetti. Teatro nos dá solidez.