(Vanessa Rodrigues/ AT) Culturalmente, Santos pode ser orgulhar e aspirar ainda muito. Os projetos pessoais e coletivos pedem os mesmos requisitos: as condições objetivas aos anseios do espírito. Quando falo em espírito, refiro-me a algo além das contingências ordinárias, aquilo que permanece sedimentando o processo histórico, os marcos civilizacionais que nos caracterizam povo, comunidade, um semblante aos nossos percursos. Duas lutas marcaram nosso caráter de sociedade civil, reivindicatória de arte que dissesse de nós e ouvisse do mundo: a luta encabeçada por Patrícia Galvão por um teatro municipal à altura do Porto, da praça cafeeira, das praias, e uma Pinacoteca concebida pelo marchand Darcy de Barros para morada iconográfica a um dos inventores do Brasil retratado em telas, Benedicto Calixto. O teatro mobilizou artistas e intelectuais e foi encampado por um estadista, Silvio Fernandes Lopes. A Pinacoteca veio de mansinho: um vetusto casarão em ruínas que contava nossa ocupação urbana orla adentro, a inquietação com um acervo disperso pedindo exibição com método. Uma raridade: iniciativa sem quebra de continuidade de governos sucessivos com a chave mágica da vontade política. Comove-me sinceramente, leitor: do excêntrico Carlos Caldeira ao querido prefeito Rogério Santos, experimentamos quase todos os espectros ideológicos e comportamentais de nossos prefeitos sem solução de continuidade, todos comprometidos com a Pinacoteca. Caldeira foi o primeiro atentar à necessidade de restauro e uso. A Cidade precisava se redimir do pecado original em patrimônio: a derrubada do Parque Balneário. A criação da Fundação foi a mais expressiva aglutinação de lideranças empresariais em nome da arte desde a incorporação dos jardins à municipalidade. Temos três testemunhas vivas da transição entre a gênese com Justo e a concretização com Telma: o ex-secretário de Cultura Carlos Pinto, a ex-prefeita e o presidente da Prodesan em seu governo, Alcindo Gonçalves. A escritora Madô Martins organizou um precioso livro sobre o monumental restauro, sob a responsabilidade da exímia Nazareth Motta Leite, com a memória viva da sua antiga e entusiasmada moradora Edith Pires Gonçalves. Acima de suscetibilidades e duelos de egos, o casarão que fora história contava história de um futuro possível. Feito Niterói e Curitiba, temos lastro para um Museu de Arte, mais Calixto e Sendin em intercâmbio com o melhor da produção nacional e da internacional. Tarsila pintou aqui, como Anita Malfatti e Wega Nery, e não faltaria comoção artística para receber grande mostra de Mário Gruber na sua terra. Na Pinacoteca — imagine! —, vi Gina Lollobrigida e, numa tarde fria de 2008, uma jovem doce percorria os corredores do casarão embevecida com nossas marinhas: Aurelia Chaplin, neta do gênio, vinha apresentar um espetáculo de feitio circense no Sesc. O casarão branco é presença em meu roteiro proustiano. Nele fizemos boa literatura e colaborei em sua programação pelas mãos de dois queridos mecenas, Mário Flávio e Geraldo Pierotti. Compus um livro nos seus 25 anos e presenciei a última individual de Gruber ao lado do seu amigo de infância Gilberto Mendes. Gruber não perde em nada para Paula Rego, e com que enlevo Cascais inaugurou um lindo museu dedicado à mestra. Nosso plus é o cenário à beira-mar. Com que esmero Estoril adaptou seu velho Grande Hotel como espaço expositivo, e com que luta Faro adapta uma antiga fábrica de cerveja incrustada em suas muralhas diante dos braços do mar num Museu de Arte Contemporânea! Nesta outra margem atlântica, devemos todo apoio à Pinacoteca, que chega ao grau supremo de interdisciplinaridade e conexão criativa. A direção de Roberto Clemente Santini revelou um gestor raro abrilhantando a prova de bastão que foram todas as presidências e diretorias que o antecederam. Tornou-se inconcebível pensar o Litoral paulista sem o brilhante de sua orla em diadema sem o sobranceiro solar no zênite dos seus horizontes. Salve, Pinacoteca!