(Reprodução/ Instagram) Paulliny Tort acaba de ganhar o prestigiado Prêmio Literário Biblioteca Nacional 2026. A Biblioteca Nacional, que viveu momentos dramáticos no governo anterior, passa por um momento glorioso sob a presidência do poeta Marco Lucchessi, que à frente da Academia Brasileira de Letras abriu em definitivo as portas da instituição às novas mídias, a suportes literários e vozes insurgentes da arte brasileira. Paulliny foi premiada na categoria romance, tendo como colegas de láurea Adélia Prado em poesia, o já aqui analisado Leonêncio Nossa, com a biografia definitiva de Guimarães Rosa, e, no quesito conto, a querida amiga santense Maria Valéria Rezende. Maria Valéria, sobrinha-neta de Vicente de Carvalho, Poeta do Mar, é, ao lado de Ana Maria Gonçalves, e agora Paulliny, um dos vértices da nossa prosa. Nada de especificar mulheres escritoras: são o melhor do romance contemporâneo e pronto. O romance pede arquitetura, tem a complexidade encadeante de catedrais, solicita amplitude cuidando do nexo intrínseco, sem esgarçar as tramas alinhavadas. O conto, em sua nobreza contida, soa a capelas toscanas ou nichos de Aleijadinho, com a mesma exigência de perícia narrativa. Mas o romance é aquilo que Rachel de Queiroz chamava de livro de ficar em pé na estante: caudaloso, torrencial. Assim como as ruas venceram o cômodo sequestro das redes impondo o humano demasiado humano à realidade das mentes e urnas, o romance é prova de resistência da ourivesaria cognitiva em tempos de arremedo artificial ou lugares comuns. Os Imortais, de Paulliny, é mais bússola que âncora de significação para uma miríade de significados; lastreado no conteúdo inusitado ao apogeu high-tech, nos dá uma forma coerente, com encantamento natural imantado no homem tateando o mundo. Sem abuso de metáforas, a realidade mesma impõe-se grande alegoria. “Nessa quietude, de um salto a garota sobe a sua pedra favorita, de onde assiste à dança silenciosa dos peixes. Os bichos já não são ingênuos, sabem que há por ali uma predadora, mas ainda se arriscam, passeiam no raso beijando os seixos, sobretudo agora que as margens estão quietas, e ela decide fazer uma tentativa. Espera com a lança em punho, olhos fixos na água.” Na epopeia de interação com o ambiente, tudo ainda é sagrado porque o grão não morre, germina o interesse pelos ocasos e alvoradas, e o fogo crepita na hesitação entre o cru e o cozido. “Foi a escolhida pela Mulher para dar continuidade ao contrato entre o clã e o Fogo, aliviando muitas garotas, que temiam serem elas as vítimas dessa escolha. É a futura Mulher e ainda empinada, metida, como já tivesse um nome. Com o piar das aves na montanha, um halo róseo se levanta, o lago crispa a superfície.” Escrever sobre neandertais exige pesquisa para ficcionalizar num contexto espaço-temporal tão inacessível quanto o vislumbre repentino de cavalos indomesticados. “Partiram, sem compreender por que o Homem decidiu viver assim, com os cavalos... como poderiam entender que ele não suporta mais que as doces mães que acariciam seus filhos estejam prontas para cortar a garganta dos filhos de outras mães, se com estes tiverem de alimentar os seus próprios, e que até uma semente arrebentando machuque a terra e que esta seja a lei de todas as coisas? Mas, pelo menos os cavalos, na sua extrema sensibilidade, não se lambuzam de sangue, os cavalos não devoram outros animais”. Dessacralizados, perdidos de ritos, só reconhecemos objetos por função, situações por necessidade. Desprovidos de símbolos, resgatamos o batizado dos ancestrais na Terra, seres estéticos na primariedade dos gestos e a divindade dos afazeres. Em Paulliny, os substantivos prescindem de ênfase adjetiva: toda aura intacta em tudo, todo sempre. Onde a fogueira que nos abastecia de ‘daimon’ protetor? Os anjos perdidos por cansaço de sonho... (Dedico esta crônica ao jovem engenheiro ambiental, crente no planeta, Marcelo de Oliveira Rocha, assassinado por horda de feras urbanas em Santos, saído dum sarau.)