Existe movimento na prosa brasileira. O marasmo, aparente refém das fórmulas de conteúdo ‘descolado’, foi quebrado com o romance-ensaio de Paulliny Tort, Os Imortais. Simbolicamente, autora nascida numa cidade nova, Brasília, norteia nevrálgica a produção nacional com tema acre e virtuosismo de espeleóloga. Além dos cacoetes temáticos circundando autoficção e caricaturas de gênero, Paulliny ousa o imemorial, envereda brasileiramente pela universalidade da espécie dominando a fábula, num precioso enredo desdobrado em infinitas significações. Confesso que a pré-história nunca foi um assunto que me movesse. Paulliny ilumina o espinhoso e eleva as tramas dos primevos, não primitivos, com interesse eloquente de ‘western’ na potência máxima da peripécia fazendo pensar. A ocupação do espaço, o ritualístico perdido na sagração do fogo, na fruição do rio corrente, a psicanálise da caverna como útero até a conquista da amplidão, a poética do espaço tangenciando trilhas, ruminando paisagens, aferindo gravetos e pedras eloquentes; o neandertal, entre a sobrevivência e o acréscimo infinitesimal de encanto. Nada mais ecologia que interação da criatura com a ocupação extensiva do seu lugar no mundo, a delicadeza do uso ou a extravagância da posse da terra como seu atributo exclusivo. Paulliny nos oferece a passagem do neandertal ao ‘Homo sapiens’, decalcado em tipos: o Homem, a Velha, a Mulher. Sempre intersecção de tudo e todos, na alternância de comportamentos quintessenciais que nos antecedem e problematizamos por milênios: a genética alternada entre altruísmo e egoísmo, o pêndulo molecular entre cooperação e disputa. O liame causal que vai da observação reverente do ritmo das nuvens, dos ventos, até o cerco contemporâneo dos habitantes de Manaus, sufocados por incêndios criminosos na floresta. Desencantamo-nos degradados. Paulliny desliza sem se deter em tese; tateia sem incorrer em arrazoado: ontológico e social redescobertos entre vidas secas e o recado do morro. Graciliano e Rosa em escala planetária. A necessidade e a conquista são temas fortes ‘linkados’ por uma invenção humana (será?): a esperança. “(...) A Mulher acha que todos deveriam celebrar, partilhar dessa vitória, pois, contra todas as previsões, mais um deles venceu a morte. E eles precisam que cada um sobreviva (...) não importa que seja magra e pouca, não é tanto a carne o que os alimenta, senão a esperança que se mistura às gorduras modestas do caldo, uma fantasia que os torna mais positivos (...) trabalhando suas ferramentas, recosendo suas botas, suturando os rasgos de suas roupas (...) distribuem pelo chão as peles rotas em meio às quais destinam um espaço para a fogueira (...) perto do calor, pois o Fogo é medicina.” A ocupação cede à descoberta: da diferença, dos outros, o inusitado estrangeiro e, nas paredes, o advento da arte. A passagem do utilitário ao encantatório: por que nossos ancestrais, que ainda ecoam em nós, adornavam, enfeitavam de arabescos, retinham a caça no recôndito das grutas? Porque somos animais poéticos. Carregamos 1% que seja dos neandertais e, por isso, o livro se coloca como relato inescapável para sondarmos nossas mazelas e esplendores. A escritora nos dá a pedagogia das sombras. Sina e legado, Paulliny reflete nossa permanência: “A Mulher (...) olhando as mães do clã que também se esfalfam, se sente afortunada pelo Fogo cumprir a promessa lhe dando um ventre perfeitamente estéril. Não gostaria de ter uma filha, de ter um filho, de gastar assim o sumo da própria carne. Sente pena delas, das mães, que estão sempre a sofrer em dobro, por si e pelos filhos (...) premida por esses sentimentos, com uma tora maior, ela realimenta o Fogo”. Quando se colocam questões estruturantes — antinatalismo, neonomadismo, enraizamento na globalização, renaturalismo e conectividade até o pós-humano —, Paulliny supera a ‘fadiga de material’ da nossa literatura na mesma medida que D. H. Lawrence e Aldous Huxley fizeram no século passado. Rememorei os dois em minhas conexões, e conectar é tudo em literatura. Quando batemos o teto da cabana, Os Imortais é leitura obrigatória!