(Pixabay) Estar só e fazendo coisas por dentro. Estar só e construindo templos na sua mais recôndita intimidade. São duas aspirações que se tornam cada vez menos possíveis no agito compulsório que nos é impingido pelo mercado, pelas telas, pelo bombardeio de estímulos de fora. Toda linha de pensamento de Byun-Chul Han vai de encontro à urgência da reflexão. “Nunca ninguém está mais ativo do que quando não faz nada, nunca está menos sozinho do que quando está consigo mesmo.” Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Pensar é fazer muito. Devanear é voar fora da asa. Impensável não ler todo dia. Detenha-se no conto, leitor. A narrativa breve e densa, conto é o que se conta contido, compacto, feito compotas de uma vida que te iluminam para sempre. Quer puxar pela cabeça com grau máximo de esforço? Leia um conto de uma página que vai te enredar para sempre: Continuidade dos Parques, do gênio Julio Cortázar. Sobre delicadeza no olhar? Recomendo O Milagre das Folhas, de Clarice Lispector. Ali uma incerteza, se conto ou crônica, os liames de gêneros soam arbitrários, detenha-se na absurda sutileza da maga do Leme. “Nunca acontecem milagres. Ouço falar. Mas tenho um milagre, sim. O milagre das folhas. Estou andando pela rua e do vento cai uma folha exatamente nos cabelos. Um dia uma folha me bateu nos cílios. Achei Deus de uma grande delicadeza.” Lindo não? Minha sagrada trindade contística: Maupassant, Tchekóv, Pirandello. O francês tem uma narrativa que é paradigma de amor ao limite da dedicação em total silêncio: Alexandre. Que perfeição ao retratar a insatisfação humana diante dos ditames sociais em A Dama do Cachorrinho, clássico russo que é aula primordial em minhas oficinas de escrita criativa! Do italiano O Homem com a Flor na Boca é pungente depoimento de valor dos encantos da existência, quando só nos resta voltar-nos ao essencial para o espírito. Não precisamos chegar a situações limite para enxergar o que vale a pena. Não esqueço o desfecho de Noites Brancas, novela que fica ali entre conto estendido ou romance, sobre amores desfeitos: “Que o teu céu seja luminoso, que seja claro e sereno o teu gentil sorriso e bendita sejas tu própria pelo minuto de felicidade e de alegria que proporcionaste a um coração solitário e grato. Meu Deus! Um minuto inteiro de felicidade! Afinal, não basta isso para encher a vida inteira de um homem?”. O fim de caso nos guarda infinitos bons momentos. Lembrança é vida. O detalhe é que todos os textos aqui elencados estão otimamente traduzidos, à sua disposição na internet. Só não lê quem não quer, caríssimos! Olhem que lindeza O Conto da Ilha Desconhecida, de Saramago. A ilha metáfora das bolhas contemporâneas, as patotas cognitivas, a mesmice comportamental. “É preciso sair da ilha para ver a ilha.” Ler é malhação do cérebro, exercite. Sobre vocação e talento? Cantiga de Esponsais, de Machado de Assis. Sobre homofobia? Aqueles Dois, de Caio Fernando Abreu. Por que não descobrir uma imensa escritora africana? Experimente o conto Você na América, da magistral nigeriana Chimamanda Adichie. A beleza da arte, a beleza dum texto literário me faz chorar. Assim, sempre que releio Olhos D’Água, da nossa Conceição Evaristo. Agora deixe-me voltar à folia lendo o maior escritor do planeta, o patrício português António Lobo Antunes. Leia!