(FreePik) “Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas, quando não desejo contar nada, faço poesia. Minhocas arejam a terra; poeta, a linguagem.” O mestre Manoel de Barros sabe que a função da grande poesia é clarificar a densa floresta de significados mascarados de realidade com a tessitura cortante do dizer poético revelador. Muito se tenta fazer poesia; raros, os poetas. Conheci Marcelo Ariel ainda na juventude, um terrível anjo como são terríveis anjos de Rilke. Creio ter sido no Teatro Oficina ou nos teatros subterrâneos da Praça Roosevelt. Gilberto Mendes comparava-o exatamente a um anjo, mas de Wim Wenders, onipresente e liricamente imprevisível, na saída de filmes de arte ou sabedor de todas as novidades da angeolatria dos bardos malditos. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Foi Ariel meu raro interlocutor sobre os romances de Mishima, o teatro de Genet e a sublime poética das portuguesas Adília Lopes e Maria Gabriela Llansol. Ariel escreve para atingir e extrair do âmago, do que nos escapa, da impossibilidade do real absoluto, na tateante orgia de certezas, feito baias marinhas. Assustadoramente lúcido na pregnância do fóton efêmero que denominamos entendimento. Não sabemos de nada e nisso afirmamos o mistério. Poderia ousar reconhecê-lo maior poeta contemporâneo, mas subjetividade não é corrida de cavalo, não hierarquizo, mas que, para mim, como ‘las brujas’ ele é, é! Desde a partida de Regis Bonvicino, só nele vislumbro um gigante do desespero. Poesia é desespero ou não é poesia. Situá-lo em categorias estanques? É um poeta ontológico e isso soa redundância. Ariel fareja o absoluto como o fizeram Herberto Helder e nosso Murilo Mendes, mas tem uma sintaxe única. Marcelo nasceu no Macuco de Santos, cresceu no horror da Vila Socó, passou pelas veredas de Dante, conhece o Brasil profundo. Dizia sobre Cubatão ser seu ‘Blade Runner’. Foi o primeiro exegeta da minha obra, meu primeiro leitor de alta categoria. Ariel é deste com olhar doutro mundo, das frestas e interseções sagradas, habitante de um Delfos deleuziano. “A luz do ser é como água/também veio do Sol/onde todos os planetas querem entrar. Dentro do Sol/O ser é imóvel como a gratuidade de um êxtase parecido com a respiração/Fora do Sol o ser é móvel/Tempo eternidade e tempo cronológico. A água é a Alma dentro do corpo/Em nós a água é o que ama/enquanto o ar pensa e a emoção é a chama que o incêndio da morte alimenta”. Heráclito com o Tao Te King, um William Blake negro que nos redime da desatenção para com Cruz e Sousa que ele resgata. Camada sobre dobras de camadas, luminescências semiológicas, a poética de Ariel é pedagogia exposta da construção de sentidos, percepções, constelações de significâncias. Ariel, ele mesmo, é constelar. Tivemos mesmos mestres: Antonio Abujamra, Zé Celso, Cláudio Willer, João Silvério Trevisan, e sempre divididos entre Sampa e o cais, a Pauliceia, sem deixar as penas e luzes do sentimento atlântico do mundo. Hoje, às 17 horas, Santos deveria parar! A Casa das Culturas recebe um poeta que antes de todos orbitou a face oculta da Lua! Ariel escreve para a Cult, é colunista da Quatro Cinco Um, é a voz da diversidade sem concessão para o clichê woke, vai lançar Orvalho Permanente, pela Assírio Alvim! Ariel, que escreve: “Os loucos são faróis acesos no fundo de abismos oceânicos/Estamos próximos do despertar, quando sonhamos que sonhamos”.