(Imagem ilustrativa/Pexels) Cresci lendo crônicas, que é boa porta para a paixão literária, prezados leitores! E que convite assumir uma coluna fixa em um dos jornais mais tradicionais do Brasil. Até hoje nas andanças paulistanas recolho memórias de leitores de Lydia Federici aqui em A Tribuna. Lia Lydia e fascinava-me ser cumprimentado por ela, vizinha ali pelos lados do Canal 4. Até a maturidade morei no 111 da Rua Bolívar, e a cronista de doce imponência, num casarão majestoso da Siqueira Campos, posto abaixo na calada da noite. Seu irmão Frederico, tão cultivado quanto Lydia, parecia saído dos livros de Oscar Wilde. O prestígio da colunista era tamanho, que ser citado em seus textos era prova máxima de influência em Santos. Assim como o retrato do belo poeta Martins Fontes protege os centros espíritas da Cidade, as crônicas de Lydia eram enquadradas nos bares e comércios por ela evocados. Eis agora eu aqui, num espaço onde lia Narciso de Andrade e Roldão Mendes Rosa, e meus amigos Gilberto Mendes e Cid Marcus. Uma escola para o gênero? Leiam O Nascimento da Crônica, do Bruxo do Cosme Velho. Machado de Assis nos diz que a crônica deve ter como inspiração a conversa de duas vizinhas ou comadres de porta, entre o almoço e a janta, tomando ‘a fresca’ na calçada, a suspirar: “Que calor!”. Conversando com meus botões, não me escapam ideias que chegam como uma festa da mente. Deleuze bem diz que as ideias são como uma festa em nós. A crônica, sinto como um convescote prosaico com sanduíche de salame e vinho verde. A crônica, ora bolas, já nos chega ao abrir a janela na alvorada. Abrir a janela é nosso mais corajoso ato existencial, um sim eloquente para a vida que desperta! Mas que diabos tanta erudição para uma contação de estória? Porque gosto de gostar das coisas, como quem escreve ouvindo Mozart seguido de um bom Cartola. Tem verso mais lindo que Acontece, de Cartola?! O vate da Mangueira tem força de um Sartre com leveza: a vida é o que acontece. No real, imaginado ou contado. Sem leitores, a crônica não se cumpre: você, interpretante que me lê e faz do que criei uma outra coisa, só sua. Tem coisa mais esplêndida que a boa e velha literatura?! Cada estranho que passa, os filmes que assisti, as pessoas que amei, os livros que li, quanto me socorrem essas irmãs ideias, como São Francisco chamava sol e lua que amo, bígamo do dia escaldante e da noite que tanto me instiga. Virão as crônicas aos sábados como um beija-flor num chapéu de sol praiano, o borbulhar do chope no Heinz ou no calçadão do Lanches Praia, com o Boqueirão apinhado de gente e inspirações!