(Reprodução/Instagram) As cidades têm suas fisionomias eternas, portando máscaras mais ou menos duradouras, personagens do tempo. O tempo que pensamos ser nosso tempo, nós!, joguetes das aparências de sua passagem, quando nós, passageiros, passamos, habitando suas geografias provisórias. Santos esplendorosa decaiu e refloresceu, degradou-se e inovou-se sobre seu imutável horizonte marítimo, que nos espreita através das ilusões das ondas. Como não reler Italo Calvino e pensar nas cidades invisíveis contidas na Santos inconsútil na aparência de construir e destruir coisas belas. A memória é sempre reinvenção. No ímpeto de lembrar e agarrar-nos aos nossos escombros e cacos, vamos juntando fragmentos do que foi e fomos juntos. O rio só nos permite irrepetíveis mergulhos: rememorar é sempre tentativa, agarrar o ido. A Confeitaria Joinville e o Restaurante Jangadeiro saíram de cena de nossas pupilas fatigadas e não deixaram nem um retrato na parede. Agora carregamos seus espectros e me pergunto, reinventando o poema Profundamente, de Bandeira: onde a Balneária, onde a boate Fugitivo, onde o Bar da Praia do querido Caldeira, onde o Cascarame das noites frias, onde o Valentim e sua dobradinha ao Porto, onde o chateaubriand do piano bar do Cibus, onde o chope indizível do Nicanor, onde estão todos? No chão frágil da nostalgia, reconstruo diariamente o casarão da Rua Bolívar, 111, de minhas infância e juventude. Do Jangadeiro, ficaram diálogos etéreos: setenta anos ponto de famílias, agora em tertúlias metafísicas. Que arquitetura para um restaurante: sólida, exclusiva para o convívio, carregado de maresia. Quando as refeições tinham aura de sacralidade. Hoje, esvaído hábito das impessoais ‘praças de alimentação’, embaladas em fast-food. Deveria uma lei salvar ao menos seu lírico mosaico ladrilhado desfeito. A Joinville que batizou todo o entorno: nossa praia Joinville, amores Joinville, amizades Joinville, point dos points do poeta do mar, cúmplice de caminhos e descaminhos. O imponente Clube XV de Sergio Bernardes e o Baleia, emoldurando a doceria, a faixa de areia onde o mate do Paraná fazia par com as estórias de sucesso do nosso ator maior, Nuno Leal Maia. Nada de saudosismo paralisante. O que resta é esperança de um futuro à altura do sabor que ainda recende em nossos paladares, sensibilidades, afetos, por outros afetos diante de tantas experiências vazias e imersões entre mercadorias padronizadas. Qual o semblante da Cidade sempre em demolição e construção, já que nenhuma estanca num rosto definitivo? Existirão normas para não acentuar nosso estranhamento na Cidade que nos viu nascer e de onde partiremos sem saber até quando o cenário que habitamos? Um direito à permanência das coisas que nos são caras nos será permitido? Da minha mocidade, ainda revisito semanalmente o Praia, na esquina da Epitácio com a Conselheiro, o Heinz, e como seria duro se não tivesse o Colégio Canadá, perpetuado em minha mirada de encantos. Um poema insuperável nos diz tudo: “O Dono da Tabacaria morrerá e eu morrerei/Ele deixará a tabuleta, eu deixarei versos/A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também/Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta/E a língua em que foram escritos os versos/Morrerá depois o planeta gigante em que tudo isto se deu/Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente/Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas”. Fernando Pessoa sabia tudo sem sair da mansarda, percorrendo o universo num gole de vinho, o que mais sabia que somos apenas formas fugazes de vida compostas de lutas, sonhos, algum estampido que chamamos vitória, um ombro para chamar de amado, espectadores de alguma certeza para chamar de nossa vida, nosso destino. Vestido de instante. Quem sabe, Zeca Silvares? Expert de naufrágios e buscas, os mergulhadores resgatarão o que foi um futuro...