(Arquivo Nacional/ Reprodução) “O senhor Getúlio Vargas não deve ser candidato à presidência; se candidato, não deve ser eleito; se eleito, não deve tomar posse; se empossado, não deve governar”. Essa cantilena batida como bumbo, de Lacerda, começou a soar em 1950, levou Vargas ao suicídio, quase impediu Juscelino de assumir em 1956, ameaçaria sua dourada gestão até 1961, derrubou Jango em 1964 e, agora sabemos, assassinou JK em 1976 para não abreviar a ditadura em 1978. O golpismo congênito é a doença infantil da direita civil derrotada, inoculada nos meios reacionários militares. Em novembro de 1955, o presidente interino Carlos Luz ensaia um golpe para anular as eleições vencidas por JK, embarca no cruzador Tamandaré com Lacerda e Penna Boto, um almirante tresloucado, para instalar um governo fantoche em Santos. O Brasil foi salvo pelo general legalista Lott, personagem raro em nossa história de opereta. Kubitschek assume com plano de metas, um inaudito planejamento de integração nacional, certa irresponsabilidade fiscal e o erro crasso de investir nas rodovias como padrão modal em detrimento da nossa malha ferroviária. Um democrata visceral, um temperamento solar de invencível sedução e de afeição sincera pela inteligência. Tinha no gabinete cerca de dez escritores e preferia conviver com artistas, deixando aos políticos as insossas articulações. Nem um mês de gestão, e dois oficiais da Aeronáutica udenista tentam uma sublevação em Jacareacanga, nas selvas do Pará. Sufocada por Lott, JK anistia-os. Tentariam outro levante em Aragarças, em 1959, participariam de 64 e do golpe dentro do golpe em 1968. Vejam que anistia para golpista nem sempre é boa pedagogia de dissuasão. No auge da popularidade, em janeiro de 57, em um convite da estratégica Associação Comercial de Santos para apresentar resultados de um ano de presidência, JK é recebido pelo megacafeicultor João Moreira Salles, ex-presidente da ACS, pai de seu embaixador nos EUA, Walter. A Rua XV era a Faria Lima de então, termômetro do mercado. JK injeta confiança na palestra, ladeado pelo seu homólogo desenvolvimentista, o prefeito Silvio Fernandes Lopes, e pelo diretor Alceu Martins Parreira. Na saída, visita a célebre livraria Bazar Paris, frequentada por estadistas desde Ruy Barbosa e Washington Luís, segue para lauta bacalhoada no Café Paulista (de volta!) e percorre a pé o caminho até A Tribuna, onde é recebido por Giusfredo Santini. À noite, luminoso banquete no Parque Balneário, saudado pelo rival, o governador Jânio Quadros. Pernoitando no Parque, é desperto cedo da manhã pelo chefe da Casa Militar, o general Nelson de Melo, que lhe segreda um motim liderado pelo almirante Amorim do Vale no cruzador, Barroso que o levaria de retorno ao Catete. Sugerem-lhe voltar de avião, JK fareja blefe. Solicita sigilo. A tripulação do cruzador prende os conspiradores. JK despacha tranquilamente com Silvio a construção do Hospital dos Estivadores, visita o Polo Industrial de Cubatão e vibra com detalhes sobre o surgimento de Pelé, com o fotografo José Dias Herrera. A sedição foi silenciada — um dos heróis, o capitão de mar e guerra Paulo Bardi. Brevemente comentada na alentada biografia escrita por Claudio Bojunga, traz um episódio do rés do chão da história. A democracia no Brasil é tão precária quanto o desejo interrompido por ejaculação precoce. Exige estímulos constantes de afeição e maturidade ideológica.