(Unsplash) Anne Carson tomava seu chá da manhã depois de ter varrido sua cozinha no outono da Islândia. Anne atende uma ligação por insistência do marido: era o anúncio do Nobel de Literatura para sua poderosa poesia. Anne, canadense radicada nos Estados Unidos, afastou-se da América depois de os ares putrefatos da Casa Branca contaminarem a atmosfera. Tem coisa mais linda que varrer seu cantinho, para uma poeta? Clarice Lispector não amava ir às feiras livres de Copacabana? Pequenos gestos de consagrar-se ao mundo, que tudo nos doa e se exaure. Leio e comento Anne em minhas oficinas, ainda que a considerem hermética. Quantos simbolismos ela oferece para salvar o planeta. Recomendo o lindo poema Liberdade, caro leitor. “Liberdade significa coisas diferentes para pessoas diferentes/Eu me pergunto que tipo de liberdade é essa que significa a morte ou uma experiência visionária que encarna a morte”. Manaus repete a cena mortífera das máscaras, agora para aplacar o fogo que consome a Amazônia. O sarampo recrudesce depois de quase extinto. O coração da África agoniza pelo corte de doações ordenado pelo regime ianque. Liberdade para ‘passar a boiada’ e degradar a floresta? Liberdade para negar vacinas às crianças? Liberdade para o mercado, a bolsa, o garimpo contaminado de mercúrio e dólares? Anne Carson doará os 12 milhões de coroas suecas a um amigo necessitado e ao Médicos sem Fronteiras. Não por ser boazinha, por ser poeta. Autoexplica-se a vocação estoica de ter muito para pensar e criar sem ter tempo de gastar tanto. Poetas temos antenas voltadas a outra sintonia. Não por santidade, mas por prioridade de espírito. Adiar o fim do mundo, como prega Krenak, é nossa vocação, ao lado de ter o pão nosso de cada dia em forma de estrofes bem construídas. Revisitando Bauman, encontrei um antigo livro bem sublinhado dividindo nosso tempo decisivo em “jardineiros e caçadores”. Os que zelam, crendo num planeta para sempre e para todos, e os que predam, sofismaticamente, com nomes delicados: empreendedores vorazes, individualistas competitivos, livre iniciativas de poluidores e pesticidas de nada verdes negócios. Voltando a Bauman: “Os jardineiros sabem bem que tipos de planta devem e não devem crescer, e que tudo está sob seus cuidados”. Até onde usar a IA? Qual o uso limite para combustíveis fósseis? Até quando substituir florestas milenares por pastagens? A Espanha se levanta contra a especulação imobiliária. A França, por educação pública decente e respeito às universidades. Os jovens vão nos cobrar pela insânia do agora seduzidos pelo breve ‘hoje’ dilapidado. “O jardineiro trabalha primeiramente com um arranjo feito em sua cabeça e depois o realiza. Ele concebe o seu enredo incentivando o crescimento de certos tipos de planta, destruindo aquelas que não são desejáveis, as ervas ‘daninhas’. É do jardineiro que tendem a sair os mais fervorosos produtores de utopias. Se ouvimos discursos que pregam o fim das utopias, é porque o jardineiro está sendo trocado pela idéia do caçador”. Sempre volto a Thoreau para pensar um porvir provável nessa era do consumir coisas e pessoas. Feliz Thoreau, volte a ser lido: “De que vale uma mansão se você não tem um planeta tolerável onde a colocar?”. Musk algum dará tranquilidade a quem se isola indiferente ao caos da desigualdade estimulada. Meritocracia pode ser outro nome da segregação. Não consigo deixar de compartilhar uma obra-prima: Os Imortais, da jovem autora brasileira Paulliny Tort, editado pela preciosa Editora Fósforo. Seria exagero imaginar que Paulliny seja nosso primeiro Prêmio Nobel? Ela nos dá um painel: de onde viemos e por que patinamos, desde a pré-história, no mesmo pântano de ignorância diante de solicitações como fraternidade e integração com o território; da clivagem entre caçadores e jardineiros com a primazia dos que tão somente competem e destroem, em detrimento dos que insistem em zelar e comungar do espaço comum. Não se empreende num planeta arruinado.