(Alexsander Ferraz/AT) A todo tempo, todo espaço, toda época e cenário, seu poeta. Cada lugar tem seu espírito, sua energia única, sua atmosfera intransferível, sua magia imantada das mais puras emanações. Os romanos chamavam isso de ‘genius loci’, o feitiço do recanto aos que nele beberam da água límpida na alvorada da vida. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Desde sempre me soou assim o Guarujá, sua alma, terra da promissão, praias de primícias, sonho dourado, vizinho pródigo. Guarujá sedução de Benedicto Calixto, perdição de amor de Alfredo Volpi. Guarujá onde Wega Nery reaprendeu as cores, aplicou as linhas ao horizonte, reencontrou o solar vermelho da paixão. Tomie Ohtake desembarcando do império do sol nascente dizia que reinventou o olhar por um azul com amarelo que nunca tinha haurido no oriente. Guarujá e suas toponímias e etimologias. Não sei se Vicente de Carvalho, preciosista nomeador de encantos, apreciaria Itapema ter alcunhado o distrito de tão brava gente. Itapema, pedra plana ou que fala, o que pedra boa de pouso. Perequê, viveiro de peixes, entrada de fartas canoas, areião generoso ao jundu pintado pelo mestre Mário Gruber. Perequê de pouca vocação ao mergulho, aconchegante golfo de benquerenças para longas redes de afagos, saberes e sabores. Para cada reentrância, península, grota, lapa, uma carta náutica de versos, um crisol de canções ao Guarujá atemporal de marulhos infindos, fisgados na efemeridade dos homens, testemunhas dos crepúsculos divididos em dias, na ilusão dos séculos. Imagine um poeta amigo de Picasso, boêmio de Montmartre, franco-suíço, descobrindo os luxuriosos trópicos! Blaise Cendrars, 1926, desembarca no Porto e é levado para uma peixada regada a parati no Guarujá, que descreve embasbacado! “Depois de passar por um pequeno forte português sorridente como uma capela de Roma, cujos canhões parecem poltronas em que seria gostoso sentar à sombra, serpenteamos uma hora no estreito cheio de água barrenta, mangueiras, bambuzais gigantescos... o sol é estonteante. No Guarujá, tudo nos abre o apetite, onde se come a boa velha cozinha brasileira, saborosa, apimentada, negra, indígena. Uma fragata suspensa no ar na praia de Guarujá...” A cidade se fez pelo fascínio, desde Américo Vespúcio, fez-se pouso de grande apego: plural, de múltiplas facetas, onde nada aparenta ser diminutivo: um modo da beleza fazer moradia. Talvez a cidade, ela mesma seja pretexto para pérola dourada de concha, pelas ondas debruada, diadema em forma de coroa. A noite das bordas por todos entornos o Guarujá um solo de jazz, um acalanto de bossa nova, um brinde ao passado glamouroso e de novo em busca de um futuro venturoso. Hoje, poeta teu amante, dou-te uma nova elegia, uma ode eloquente: Guarujá, Guarujão começa a ser lançado canto, poema manifesto de esperança, injeção de autoestima. Guarujá musa das cantigas praianas de outro vate, por ti também de amor insano. “Ouves acaso quando entardece/Vago murmúrio que vem do mar. Vago murmúrio que mais parece/Voz de uma prece/Morrendo no ar? É tão pouco o que desejo/ Mas é tudo o que me falta/Só porque a flor do teu beijo/Pende de rama tão alta... Ninguém sabe o que suporta/O mar que chora na areia/Por essa tristeza morta/Das noites da lua cheia”. Desde Homero a Fernando Pessoa, é mister aos poetas cantar o oceano infindo. Nosso Vicente cantou o mesmo que agora louvo: o mar preciso, o mar revolto, buscando ser sereno, do Guarujá que nos protege de Poseidon e seus perigos. Convido-te, leitor, a saudar a ilha do dragão da sua outra margem santense, na Pinacoteca Calixto na hora mágica do crepúsculo.