(Taba Benedicto/ Estadão Conteúdo) Uma atriz no centro desnudo do palco, uma hora e quinze minutos de leitura dramática dum texto clássico do pensamento existencialista; uma dama de 96 anos com a entonação irreprimível de contralto, nem um ruído de mosca. Será ou não um ato litúrgico, que testemunhamos em nome da palavra, do teatro milenar, da literatura aliada à mais entranhada reflexão sobre liberdade visceral? Fernanda Montenegro ali soava-me, na intimidade da primeira fileira, como se ouvisse alguém com a dimensão do sermonário do padre Vieira ou desfilasse toda a história da dramaturgia brasileira, desde João Caetano. Não pela antiguidade, mas pela magnitude de sua presença cênica impregnada de dignidade, que só os gigantes nos concedem com humanidade única. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Faz tempo não tinha visto tamanha simbiose entre texto e intérprete, como fio condutor de um discurso ideológico tão catártico e libertador. Só os tolos desconhecem que tudo é ideológico! Simone de Beauvoir por Fernanda nos redime do recrudescimento dos fascismos cotidianos, da mesquinhez burguesa agora descarada, da contracorrente reacionária aos avanços progressistas de mulheres, gays e movimentos de afirmação de negros e povos originários. Sim, a senhora no palco fala abertamente através de Simone sobre orgasmo feminino, casamento aberto, domínio da mulher sobre seu corpo, não submissão aos preceitos opressivos impostos pelo capitalismo. Fernanda reatualiza Simone num país necessitado de resistência na mais antiga trincheira, a arte totalizante do teatro. Seu hábito escuro sobre o breu, cara e toda coragem de 80 anos de atuação, sem adereço que não os óculos postos ritualisticamente, e pronto! Fernanda tomada pela maior filósofa do século passado que ainda não passou, e nos convoca à militância em nome do sacrossanto direito de sermos nós mesmos. Entre suas mãos firmes de quase centenária, Fernanda soergue trechos de Cerimônia do Adeus, de La Beauvoir, mas ao fim da peça-manifesto Fernanda não nos promete adeus ainda: já ensaia reflexões sobre a velhice a partir de Cícero, da velha Roma, para nosso deleite. Dentro do frágil corpo, uma leoa pede aos deuses tempo para mais esse tour de force e voltar a Santos com mais este espetáculo! Santos que viu Sarah Bernhardt no século 19, Santos de Cacilda e de sua amiga Margarida Rey, injustamente esquecida, Santos que ganhou um prêmio inesquecível pelo Sesc reinaugurado. Sesc, nosso Ministério da Cultura de fato, Sesc fundado faz 80 anos por um santense ousado, Roberto Simonsen; Sesc, que não imagino como seria o Brasil sem sua onipresença sócio-formativa-cultural. Voltei no tempo. A primeira Fernanda a gente nunca esquece. Foi no Teatro dos Quatro, em minha temporada carioca aos 18 anos, poeta sob uma ditadura terminal, descobrindo artistas referências, como Proust e Gide, justamente citados por Beauvoir. A peça, ponto alto da carreira de Fernanda, As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant, quando a própria encarnação arquetípica de atriz anuncia naquela noite a morte do genial autor alemão Fassbinder, ainda jovem. O embate interpretativo entre Fernanda e Renata Sorrah me fez entender a arte como ato sacrificial, entender serem tanto poeta quanto ator seres de profunda entrega ao indeterminado da busca. Vendo Fernanda menino, pensei: é isso! Paixão sem freios, arte sem rede de segurança, um fervor animal. Fernanda, como grita uma fã, é necessária!