Quem não sabe o que procura dificilmente compreende o que alcança. Arte e medicina são destino ou não são. Poetas e curadores do corpo eram demiurgos xamânicos de almas. No começo e ao cabo, nas gêneses e situações limites, a humanidade só não mais prescinde de quem encanta e de quem cura ou apascenta nossas dores. Os sacerdotes primevos eram a encarnação, num só espírito, desses dois arquétipos de redenção pela transcendência e pela remissão dos sofrimentos. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Com a monetização da vida perdemos de há muito a aura de respeito pelos artistas, especialmente poetas, e já mais recente vamos nos desvencilhando da medicina, sua mítica fascinação. Os procedimentos e as abordagens alienaram-se pela impessoalidade e pela coisificação. Mas alguns médicos fazem jus à filiação de Esculápio por Apolo: seres de luz impregnante, equilibristas de emoção e racionalidade, e solares, ao ponto de pensarem o mundo pelo estetoscópio. Não são médicos de um irrecorrível diagnóstico, fazem a anamnese de possibilidades. Abrem trilhas, acompanham veredas de qualquer remota salvação. Fábio Mesquita desde cedo queria redimir o mundo da desigualdade, fonte de quase todas as enfermidades; a medicina foi seu instrumento revolucionário, sua trincheira de utopias vívidas, seu front de superação de injustiças milenares. Sua iniciação deu-se entre um cenário de guerra planetária, uma síndrome inaudita, uma epidemia associada a preconceitos medievais, a aids, entre sarcomas e a fantasmagoria da esqualidez. A aids, que deixou minha geração coalhada de companheiros abatidos pelo caminho, foi a prova de fogo dos médicos forjados nos obscuros anos 70 e 80. O jovem Fábio, já com carreira experimentada no Interior de São Paulo e do Paraná, veio clinicar no epicentro latino-americano da crise sanitária: Santos — do Porto, da boca, dos cortiços, encruzilhada de liberalidades e outros preconceitos. Todo médico, entre os pavilhões do HIV, pode dizer que conheceu a arte da clínica num Waterloo ou em praias da Normandia. Esteve no inferno trazendo claridade. Solitário médico no simbólico Centro de Saúde Martins Fontes, no primeiro ambulatório de HIV, em 1987, amplificou a ação como primeiro organizador e coordenador do primeiro Programa Municipal de Aids no Brasil. Fábio ousa o experimento, a tentativa desassombrada com o primeiro estudo de HIV, em 12 países, pela OMS, entre pessoas que usam drogas injetáveis. Santos torna-se ‘case’ de profilaxia na mitigação de danos aos vulneráveis; aqui, a resposta veio em ameaça de processo e prisão pela mediocridade reacionária na terra da liberdade e da caridade. Eles passaram ao opróbrio da História. Fábio, um motor de servir ambulante, galgou a instalação do Programa Nacional de Aids, do Ministério da Saude, pesquisador em HIV e hepatites virais da Medicina da USP, coordenador de aids da cidade-planeta de São Paulo, ‘leader’ do time de HIV da OMS, em Genebra, para Austrália, Vietnã, Myanamar, Filipinas; ‘globe-trotter’ de mobilização referencial nos salões decisórios suíços aos campos de refugiados, entre tsunamis e guerras civis, do coração da África aos confins do Timor. O recém-formado secretário de Toledo e Campo Mourão, vereador santense, dedicado secretário do amado e complexo Guarujá, está entre aqueles heróis da Unaids que um dia serão lembrados pela luta ante a mais devastadora chaga desde a peste negra. Pela amplitude e pelos avanços comportamentais, em nome dos companheiros homoafetivos, obrigado, Fábio Mesquita! *Flávio Viegas Amoreira. Escritor, membro das academias de Letras de Santos