A filosofia deveria ser um direito constitucional. Pensar não pede parar. Lembrai dos peripatéticos de Atenas, refletindo andando, levando a filosofia no berço pelas ruas, entrecortada do bulício de toda gente, sem peias de ostensivo hermetismo. Simples não se reduz a simplório: a lindeza do padre Vieira era dizer aos brados, sem intermediação entre seu talento exorbitante de dizer e a compreensão compassiva dos ouvintes embevecidos. Quando falo filosofia, vou além do cânone: leio Guimarães Rosa — filosofia, quanta ontologia nas tuas veredas? Quando leio Clarice Lispector aprendo tanto de amor quanto com Ovídio quando leio sua aprendizagem no Livro dos Prazeres! Que espanto é a torrente fenomenológica de Água Viva! Clarice me toca tanto quanto todo Merleau-Ponty! Afinal, filosofia é ‘curtição’ da linguagem em nome de libertação. Quanta metafísica nas telas de De Chirico e quanto desespero de Kierkegaard nos dilacerantes quadros de Francis Bacon. Se tivesse que enviar uma cápsula a outra galáxia a contar o que fomos, sem titubear remeteria O Sétimo Selo, de Bergman: estamos todos ali no xadrez incessante com o destino e a redenção na arte! Releio o romance de Paul Bowles, O Céu que nos Protege; viste o filme, leitor? Encanta-me o homem diante do deserto e de sua carga existencialista a cumprir. Filosofia é conexão, retroali-mentação de percepções cristalinas, interdisciplinaridade. No princípio, pouco se distinguia o pensamento das ciências naturais. Quanto de especulação nas viagens de exploradores como Humboldt, Darwin e o cônsul britânico em Santos, Richard Burton, tradutor das Mil e uma Noites? Ninguém fez mais pela psicanálise no Brasil que o inesquecível mestre Roberto Freire; ninguém trouxe tanta luz à filosofia, ao comportamento, ao mercado, à elocubração do trabalho e ao propósito de vida quanto Mario Sergio Cortella. Cortella ungido pelo mítico Paulo Freire, Cortella midiático, Cortella entrecortado de academia e palco. Gosto que me enrosco especialmente de dois livros do mestre: Por que Fazemos o que Fazemos e A Sorte Segue a Coragem. Propósito é tudo que podemos motivar aos que vêm num mundo estilhaçado de significados. O niilismo é o mal; a geração nem-nem está aí nos desafiando. “A sorte segue a coragem, desde que a coragem seja competente.” Que delícia ler Cortella discorrer sobre a tão propalada ética a partir do denso Kant com a leveza jazzística de um professor que sorri. Em tempos de escatológico negacionismo e bizarras opiniões, de quanto serve isso, desde a Casa Branca até as nada sociais redes idiotizantes? Noutro percurso, Cortella chega às raias de Wilde discorrendo sobre a epidemia de ressentimento que assola um planeta de aparências: “A inveja é o exagero da admiração. Há pessoas que nos admiram e há outras que nos invejam. Quase sempre, o invejoso não é aquele que quer ter o que eu tenho, mas ele quer que eu não tenha”. Tom Jobim já tinha sacado isso no brasileiro. Comecei ler Cortella por sugestão do mestre Abujamra. Sua entrevista ao Provocações é antológica, não fosse ele um provocador com doçura. E quando li que tinha já contado cerca de dez mil livros gozosamente lidos e saboreados, me lembrei do epitáfio preferido do Abu: “Aqui jaz um homem que não teve tempo de ler tudo”. Como Zizek e Byung-Chul Han, Cortella não tem preconceitos em evocar a cultura pop, recorrer ao melhor da MPB ou linkar conceitos com a terminologia internética. Ele conecta com esmero axiomas, teorias, situações com perícia de ourives. Desconfio, até, de que Cortella tenha incorrido na arte dos versos. Para ele, dedico um poema do nosso santense Vicente de Carvalho: “Essa felicidade que supomos/Árvore milagrosa que sonhamos/Toda arreada de dourados pomos/Existe, sim: mas nós não a alcançamos/Porque está sempre apenas onde a pomos/E nunca a pomos onde nós estamos”.