Ler é ser conduzido pela mão de estranhos ao caminho de nós mesmos para trilhar mais amplamente o mundo. Sigamos a pensar por que a China dá certo: ela decide seu destino com longo alcance. Acabou de anunciar um novo plano quinquenal com metas robustas: gasto obrigatório mínimo de 7% em ciência e inovação. Aumento em 25% na participação de não fósseis na matriz energética. Fabricar carros elétricos é obsessão nacional. Aposta em robotização e no fortalecimento rigoroso da estabilidade de empregos. A China é senhora em superar pretensas incompatibilidades: com a mão tutelar do Estado, o mercado age sabendo estar cumprindo metas para o bem-estar social. Na China, o coletivo é mantra. Depois de crescimento exorbitante e queima desenfreada de carvão, é hora de coibir a desigualdade. A venda de marcas de grife globais sofre forte retração. A China não pode se dar ao outro luxo — o do ressentimento e da percepção de escárnio quando tem necessidades alimentares, para alguns milhões, a serem satisfeitas. A China executa um programa rigoroso de combate ao desmatamento e de neutralidade climática. Ai de quem questiona o descontrole climático produzido pela voracidade humana! Enquanto a Rússia se enterra numa guerra fratricida e os Estados Unidos sucumbem ao chauvinismo sem estratégia em Ormuz, a China espreita o horizonte, placidamente calcula riscos, oportunidades, na longa perícia do bicho-da-seda. Enquanto sumérios e babilônios declinavam em civilização, os chineses forjavam sua primeira dinastia com obras de contenção nos vales dos rios Amarelo e Yangtzé sob Yu, o Grande. Experts em resilência, curtidos em catástrofes e reconstruções, os chineses são senhores do ritmo apropriado, do salto certeiro e da retificação de rotas. Se algo me intriga em História é por que, depois das sete grandes viagens de Zheng He, o lendário eunuco almirante que desbravou o Pacífico e o Índico e teria descoberto a América nos idos de 1400, o Império do Meio mandou destruir sua portentosa frota fechando-se por séculos. Outro nó é o futuro de Taiwan, impasse que se arrasta desde 1949 e tem como pano de fundo um parque tecnológico que representa 60% dos chips de computador do globo e 90% dos semicondutores de última geração. Se o regime soube negociar por Macau e Hong Kong, quem sabe um desfecho pacífico seja possível. No universo sob o mandato do céu, pensa-se sempre metaforicamente: o mandarim é poesia pura, e a linguagem molda o conteúdo. A lagarta nutre-se de folhas de amoreira por 40 dias; sua cabeça em forma de oito infinito movimenta-se meticulosamente até formar o casulo perfeito, fio por fio. Um único fio contínuo chega a medir 1,5 quilômetro de comprimento. Paciência que alimenta e fortalece. Ocidentais, estamos perdendo energia feito carregadores mal ajustados ao aparelho de pensar, decidir, implementar, enquanto os vermelhos alumiados pelo sol nascente concretizam um casulo harmonioso. Harmonia é, desde Confúcio, a norma de moldar pujança com segurança. O caos é a chave do medo, e a China não pode incorrer em desordem para 1,4 bilhão de irmãos. Lá, o sentido de família é seriamente estendido ao sentido de povo e nação. O ‘cada um por si’ neoliberal seria catastrófico. O tal empreendedorismo é muito estimulado desde Pequim, mas os 50 milhões de empresas de médio e pequeno portes ordenam-se fio a fio pelo casulo central. Centrífugas e centrípetas, todas as teias convergem para a sacrossanta harmonia celeste tutelada. Não sou um sinólogo: sou poeta, e todos os poetas se entendem com a China como inevitável método. A China tem oferecido uma pauta planetária não hegemônica. Não é da natureza chinesa o imperialismo ostensivo: talvez só pleiteie proeminência. O Camões mandarim, Du Fu, pai em versos da pátria, nos dá um estupendo poema ao bicho-da-seda com esta estrofe: “Ver-se é difícil; distinguir, tão mais difícil”. É necessário ver-se. A China tem planejado o útil e afastado o desnecessário.