( Ana Cristina Campos/ Agência Brasil ) Era verão em Pequim. Uma civilização tinha encontro marcado com seu apogeu milenar. Em setembro de 1976, a longa agonia de Mao Tsé-Tung punha fim a uma saga de 50 anos pela unificação e pela total soberania da China sob a égide de uma ideologia nascida na Europa com muitos elementos autóctones. O Império do Meio, sem prepotência, desde o século 3 a.C. moldava-se distintamente de qualquer outra civilização, erigindo o sólido edifício de sua identidade lastreada numa coesão única composta por etnias convergentes. A Grande Marcha dos anos 30, imantada na nossa Coluna Prestes, catalisou milhões de seguidores camponeses e intelectuais, deserdados e burgueses progressistas batendo os invasores japoneses, o imperialismo ocidental e o decadente regime de Chiang Kai-Chek. Mao, poeta, com pretensões de filósofo e implacável estrategista, morria com relativo respeito da América que subestimara o movimento dos guerrilheiros agrários responsáveis pela maior coletivização e planificação da História. Foram séculos de humilhação neocolonial sob a forma do ópio, aviltamento de tradições, imposição de enclaves mercantis e vilipêndio do mandato do céu. Isolado, patinando em táticas erráticas de mobilização, do Grande Salto por industrialização forçada que levou ao abismo da Grande Fome de 1958 até a insana Revolução Cultural de 1966, sob o pretexto de tonificar os pendores militantes da massa. Mao, contudo, viu sua potência escorregar para um improvável sucessor: o franzino gato de sete vidas Deng Xiaoping. Sem o glamour de Che Guevara, sem o carisma ensandecido de Mao, Deng, pelo ‘socialismo de características chinesas’ que imprimiu, amalgamado ao capitalismo sem perder a primazia decisória do primeiro, pode ser considerado o mais influente líder, por escala e influência, do século 20 para o 21. Tão heterodoxo quanto Napoleão, Deng preparou-se desde jovem para, já octogenário, florir seu legado. Um administrador de gabinete com ampla visão, entre memorandos e relatórios, com perícia de mandarim se valeu dos escombros maoistas como argamassa para preceitos de integração, culto à eficiência e pragmatismo obsessivo. Se Mao instilava o caos como tática para uma harmonia loucamente purificadora, Deng implantou frenético crescimento tecnológico e moral sem barulho. Da sua aldeia, universalizou o provérbio: “Não importa a cor do gato, importa que capture o rato”. De Confúcio, a prática de nunca atribuir aos outros seus infortúnios. Expurgado três vezes, três vezes Mao mandou buscá-lo depois da humilhação de preso, exilado no interior profundo consertando caminhões e alimentando porcos e ter seu filho jogado janela abaixo na universidade pela Guarda Vermelha, levando-o à paraplegia. Com Mao morto, ainda teve que remover a execrável Gangue dos Quatro, chefiada pela viúva do timoneiro, Jiang Quing. Deng empenhou-se numa tríade: investimento estrangeiro, injeção pesada em educação e criação de mercado de consumo para um povo que durante gerações almejava só uma bicicleta, um relógio de pulso e uma máquina de costura. Bom frasista, decretou: “Pobreza não é socialismo”. Jovem, eu recolhia pérolas de seus discursos lembrando os analectos confuncianos: “Em um país bem governado, a pobreza é algo que envergonha. Em um país mal governado, a riqueza é algo que envergonha”. A China, desde a dinastia Ming, não conhecia o saudável equilíbrio entre bom governo e justa distribuição de riquezas. Deng empreendeu o maior esforço, no planeta, de ascensão social em uma geração: 1 bilhão de esfomeados admitidos no seleto clube de beneficiários de um dragão tecnológico. Justiça seja feita, Deng teve um Moisés que assentou as bases sem cruzar o (outro) Mar Vermelho: Chu En-Lai, contraponto racional ao afã revolucionário permanente de Mao. Há 50 anos, um astro de luz esmaecida incorporava-se de novo à Terra sem turvar-se como satélite. O porvir tem muito pano para manga — de seda, com detalhes de porcelana.