Dois paradigmas, duas visões de mundo: o Ocidente, lastreado na luta do indivíduo diante do destino em Odisseu; o Oriente, no primado de Confúcio, pelo sacrifício do ego em nome do coletivo. A China não reconhece nossa matriz grega de tragédia, com Prometeu afrontando os deuses em nome do conceito de liberdade do herói. No confucionismo, toda saga da fortuna sobre o destino é conjugada no plural: dever moral para com os outros (Ren) e pacto ou coesão social ao considerar a comunidade sua família ampliada (Li). Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Desde os alicerces da dinastia Han, em 200 a.C., os chineses que se sentem filhos dela em 2026 nunca se habituaram ao culto simplista da liberdade sem a dimensão do coletivo; talvez por aí se entenda a adaptação do Império do Meio ao coletivismo marxista. Em Confúcio e com os Han, a China forjou de verdade a ideia de meritocracia e funcionários de Estado: o erudito-conselheiro (Shi), a elite intelectual que sustenta a sacralidade milenar da família expandida. A China não queima etapas, reflete em conjunto; a China preserva os ritos, quando nós, ocidentais, implodimos tudo que brilhava de sagrado, de sacrifício, de comunhão com noções de ancestralidade e porvir. Vivemos no modelo consumo-hedonismo, ausentes de filiação e posteridade. O sucesso da China é o casamento da tradição com o planejamento da vanguarda, tudo ao contrário do que o Consenso de Washington preconiza: planos quinquenais norteando o mercado por investimentos e diretivas estatais, reformas estruturais e condução de rumos dentro de condições de prosperidade para todos e para sempre. Xi Jinping não hesitou em coibir sistematicamente a corrupção advinda dos acenos capitalistas ou qualquer desvio desigual dentro do amplo arco de possibilidades do ‘socialismo de mercado’. Um exemplo máximo da correção de rumos constante em Pequim é seu compromisso pesado com sustentabilidade e renovação energética. A transição verde exige a meta de 50% de fontes não fósseis até 2030! Não imagine, leitor, que Pequim centraliza todo o poder decisório sem apoiar-se em ampla rede de interativa capilaridade por todas as províncias. Na China, os prefeitos são super: superdesenvolvedores, superinvestidores, supercondutores de diretrizes. Como bem enfatiza Henry Kissinger, a China nunca perseguiu o sonho de ‘progresso’ no sentido ocidental. Os ingleses, no fim do século 18, ficavam desnorteados quando os sábios mandarins recusavam as quinquilharias da Revolução Industrial para forçar aberturas comerciais que seriam substituídas pelo entorpecimento do ópio como sedução vitoriana. Não se concebe progresso sem harmonia compartilhada e recuperação das ‘verdades profundas’ apregoadas por Confúcio: avaliação, correção e longo prazo, detalhadamente construídos. Tanto na vida pessoal quanto na pública, o estilo perpassa toda abordagem decisória de uma situação: análise exaustiva; preparativos cuidadosos; atenção a fatores psicológicos e políticos; busca pela surpresa; rápido desfecho. Retomo em minha estante um dos primeiros tratados geopolíticos que consideraram com toda magnitude o ‘planeta China’: O Problema Chinês, do francês Roger Garaudy. Vem de longe meu fascínio pelas soluções chinesas para os nossos problemas, e dois são fulcrais para nosso século: salvar o planeta, passando pela resolução da esfinge que nos espreita a devorar, a inteligência artificial. Nenhum conhecimento se impõe sem resguardar memória, no sentido de percepção humana integrada ao uso. Nenhuma tecnologia autonomizada pode impor-se a um mercado indiferente aos ditames concretos, submetendo-os por seus atributos digitais. Nos Brics, teremos uma parceria promissora de alternativa global às big techs não reguladas por instituições de estado, ordenamento social e controles multilaterais. Recorro a um dos maiores poetas chineses, Wang Wei, para a determinação chinesa de domar a IA como ferramenta, e não, estopim do caos. “Na arte de pintar, o trabalho do pincel e da tinta é o mais perfeito porque, tendo embora a sua origem na natureza, só se conclui mediante a habilidade do criador”.