Ir à estante é sempre deparar-se com nosso templo: contemplar antes de se deter no livro preciso, ansiado. Desde cedo, me fascinou o conceito chinês de presentificação do gesto, vivenciar o que se faz de modo pleno, desde o café saboreado ao primeiro desafio existencial: abrir as janelas. De onde escrevo, saúdo impregnado dela uma linda paineira enquadrada num longo descampado que vai dar no porto. Vejo-o, sei-o, absorvo-o, o horizonte que descortino e que amplifica. Wu wei: executa uma tarefa com total presença mental no que fazes. Jung descansava o cérebro hiperconectado em mitos cortando lenha. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Um dos mais belos poemas brasileiros, Casamento, de Adélia Prado, é sobre amor conjugal, cumplicidade amorosa a partir de um ato banalíssimo: descamar um peixe para o almoço a dois. Os chineses sabem o que fazem, porque, formados pelo Tao, fazem para durar por fora e ressoar por dentro, num longo aprendizado de tudo que constroem. Se tivesse que escolher um substantivo para representar a China, não teria dúvida: aprendizado. Volto à estante, onde me deparo com uma obra-prima sobre tudo que estou divagando: Sobre a China, do genial e controverso Henry Kissinger. Que livro! Corto o pensamento-viajante para minha memória distante: o atormentado Nixon, rompendo todos os padrões da guerra fria desembarcando em Pequim, para quebrar o gelo com o já alquebrado Mao Tse Tung, fumando placidamente. Duas poltronas toscas separadas pela onipresente escarradeira de porcelana Ming. A América abriu a China ao grande jogo, isolou a União Soviética, e o calculado pragmatismo chinês acabou engolindo as tentativas de cooptação estadunidense. A China deixa-se envolver, aparenta sucumbir; a China sempre espreita e dá o pulo certeiro, sem um único estampido desnecessário. Tudo tão ensinado em A Arte da Guerra, de Sun Tzu, que serve para os campos de batalha convencionais, mas é um lindo tratado de psicologia pessoal ou social, embalado pelo melhor do temperamento milenar: a poesia! Querido leitor atento, nada na China se faz sem o tempero medido da poesia, no seu sentido mais profundo e elevado. Nada! A poesia da caligrafia, dos caracteres codificados, a poesia da gravura em tecido e papel, a poesia da arte em laca, esmalte e porcelanato, a poesia como linguagem de coesão civilizacional e retórica de estado, para mobilização das massas! Dos imperadores aos CEOs das grandes corporações chinesas, a poesia entrecorta todas as estratégias e os cases de sucesso, na complexa cadeia de comando do Império do Meio. A China não se expande para o que não considera seu; a China nunca se sentiu invadida pelos mongóis, manchus ou ingleses, quando sabia incorporar com paciência as fragilidades do suposto usurpador; a China conjuga aprendizado com paciência. Kissinger foca com maestria nesse conceito: a energia potencial, a sutileza do desenvolvimento duma situação, os fatores intangíveis de uma equação ou um prisma. Os chineses esperaram cinco mil anos para chegar à absorção de toda a tecnologia humana vibrando em harmonia. Harmonia é ideal sagrado e perpassou desde o confucionismo ao Tao, com elementos dos sábios jesuítas até o socialismo peculiar, que privilegia mais segurança com igualdade possível, que o fragilizado paradigma de liberdade ocidental, carcomido por exclusão e discórdia. O mais intrigante nos chineses: eles não querem convencer ninguém, nem com monoteísmo religioso ou exportação ideológica: a China se molda e sugere, pesca sem anzol, não cria Vietnãs ou Ormuz histéricos. Assenta seu primado e conduz-se ao destino. Para aqueles que se apressam em desconsiderar os valores do estado em nome da precária mão invisível do mercado, recomendo China: O Socialismo do Século 21, um livro premiado com o Book Award chinês, escrito pelos brasileiros Elias Jabbour e Alberto Gabriele. A China pode nos ensinar que progresso pode ser um tropeço equivocado, se levado ao limite da irracionalidade. Eles se movimentam retificando. A retificação de rumos é uma constante. Tudo passa, a China passarinho.