(Adobe Stock) Que mistérios guarda a China? O que supunham mistério é sua longa marcha, desde o período dos Grandes Combatentes, no milênio anterior a Cristo, que redundou em sua unificação, até a sombra de Mao, que se abriu em múltiplas possibilidades para o mundo. Desde menino matutei sobre a frase atribuída a Napoleão: “Deixem a China adormecer, porque, quando ela despertar, o mundo tremerá”. O grande corso nunca o disse propriamente, mas imprimiu-se a lenda para fazer-nos refletir. A China não dormiu, os chineses foram, e são, o mais permeável império para as melhores influências do planeta. Enquanto a democracia grega engatinhava, surgiam dois sistemas estelares de primeira grandeza do pensamento: o taoísmo, de Lao Tzu, e o confucionismo. Enquanto o Império Romano ruía pelas encostas abissais do Himalaia, a quase eterna rota da seda trouxe o budismo, moldando três vértices complementares duma infusão que gestaria a harmonia individual do Tao, a supremacia do coletivo de Confúcio e o desapego de Sidarta. Que feliz confluência geoespiritual, que agregaria ainda a projeção concreta de Marx para todos preceitos das filosofias precedentes. Desde que jovem li a Importância de Viver, de Lin Yutang, ou depois de me debruçar sobre as crônicas de viagem de Marco Polo a Catai, nunca mais larguei o interesse pelo Império do Meio. A leitura era encantatória, sem complexidades sociopolíticas, que só descobri no Livro Vermelho. A China pede aos admiradores a mesma perícia do detalhe, dos paradoxos enigmáticos de seu Livro das Mutações. Os hexagramas que indicam saídas aos labirintos mais intrincados aos peregrinos: as rotas íngremes por dentro de nos mesmos. Até que, com maturidade suficiente, recorri aos saberes e sabores, os provérbios de Confúcio que levam no Ocidente um termo estranho: analectos. Um dos meus infindáveis caderninhos de notas, datado dos meus quatorze anos, guarda um desses analectos: “Transportai um punhado de terra todos os dias e fareis uma montanha”. É o que a China vem fazendo de modo orgânico e com uma coerência intrínseca, inabalável, nos aparentemente erráticos rumos de seu destino. Entre os século 6 e 13, quando sucumbe aos mongóis, a China viveu seu renascimento, quando a Europa vivia as ruínas bárbaras que deram no medievo. Guardem esses nomes: dinastias Tang e Song. Sobre a égide de poetas e inventores, a China antecedia grandes descobertas que floresceriam muito depois, ressignificadas em nosso próprio renascimento. A impressão em madeira, a porcelana — símbolo da delicadeza cobiçada por sensíveis e brutos —, a pólvora e o papel-moeda que redefiniram poder e sanha, tudo documentado pela insuperável fineza da xilogravura. A China se conta feito os cristais fractais de um diamante: ela se repete infinitamente sob a aparência da mudança. Decidiu nunca mais se humilhar, como no século 19; decidiu utilizar o materialismo científico, sem abster-se da tradição celestial; decidiu yin e yang entre os modelos dum socialismo adaptado; utiliza-se do capitalismo sem deixar que este avance além do útil, sem deixar o equilíbrio para sempre e para todos. Para sempre explica sua sincera preocupação ecológica e para todos o comunismo, que para eles é não abdicar da igualdade, como valor mais aproximado possível do ideal. Caro leitor, se a China é tratada como ‘capitalista de estado’, é por uma delicada dialética entre o ímpeto empresarial e as demandas da comunidade, e não tenha dúvida de que, quando o capital cresce muito o olho, o estado não titubeia em lembrar que a prioridade é o benefício de todos, em detrimento da ambição do indivíduo. Neste ano, do cinquentenário da morte de Mao, também poeta, recomendo dois livros: A Nova China, Para Além do Socialismo e Capitalismo, da acadêmica Keyu Jin, e Mudança, do Prêmio Nobel de Literatura Mo Yan. São impressionantemente lúcidos retratos sobre o porvir. Duas declarações têm tudo a ver com ambos: “Não existe justiça social sem riqueza”, do presidente Díaz-Canel, de Cuba, e “o socialismo de negócios”, plataforma do novo premiê britânico, Andy Burnham. A China sempre viu primeiro.