(Imagem ilustrativa gerada por IA) A natureza humana feito o clima, o mundo incerto nos ritos e nos horizontes. Não que as coisas fossem melhores antigamente, só mais previsíveis nas dores e mazelas. O ponteiro da história não regride. Não deixou nenhuma saudade o tempo em que as mocinhas, quase meninas, casavam levando a boneca e os homens ‘pintavam e bordavam’ porta afora com as matronas reclusas em sua servidão quase voluntária de criar ninhadas de filhos e envelhecer antes da menopausa. Olhar sempre para frente consertando os atrasos do passado. A China confucionista, e que não caiu na conversa mole da ausência de Estado, padece e pensa nas soluções para as duas pontas vulneráveis da vida. Lá e cá, famílias pequenas, de filhos únicos ou sem filhos, nos levam ao desafio que só cresce: quem vai cuidar dos que nos cuidaram? Desculpe pelo clichê da indagação, tenho horror dos lugares-comuns; mas é assim, seca, a questão. Antes, é preciso pensar nos que chegam: o que vai sobrar numa economia digitalizada e de mercado de trabalho robotizado? Em que paradigmas se agarrarão os ‘novos jovens’ na era da volatilidade e da dispensabilidade do que nos resta de humanos e criativos? Fico matutando: que horror ler um texto sem saber se escrito por gente ou IA. Não falo de petições ou diagnóstico médico auxiliado por IA, digo texto ‘de carne, osso e suor’. Imaginem filmes sem a garra dum De Niro ou de Meryl Streep? Quem disse que a juventude foi sempre sinônimo de felicidade? Agora vejo-os atônitos, quase às raias do niilismo. E como essa meninada está se desdobrando para fazer tanto e tudo, bravamente antecipando o fim da festa da sua utilidade! Nascido no começo dos anos 60, sinto-me privilegiado em fazer parte da ‘geração sanduíche: cresci e vivi metade da vida num mundo analógico, de olhos nos olhos e da intimidade dos orelhões de esquina. Agora, sem perder os encantos que a ausência de distância, que a miraculosa internet, com toda arte e saber, proporciona. Quando imaginar que, andando, ouviria Brahms? Para os de 15 e os de 80, a saída é a mesma: ter propósito elevado na vida que chega e na que resta. Não confundir propósito com ambição: propósito é o que nos alimenta quando as ambições não são palpáveis ou já nos são impossíveis. Voltar para casa e ter um livro que te transporte, um filme que te mova ou ir ao bar conversar com pessoas que te multipliquem. Na aurora ou no crepúsculo, teu quarto e uma mesa, vendo gente passar, sempre soam destinos deliciosamente inevitáveis. Escrever, por exemplo, é duma dureza prazerosa sem par. Escrever é estiva, suamos e nos moemos por dentro para alcançar um resultado à beira do orgasmo! Escrever te ‘adrenaliza’ mais que dez maratonas! Recordo dum livro de Paul Nizan, amigo de Sartre, com uma frase que tenho sublinhada desde a adolescência: “Eu tinha 20 anos. Não me venham dizer que é a mais bela idade da vida”. A vantagem do corpo compensa as pressões e descaminhos quando todas as rotas nos são possíveis e os tombos, desconhecidos? As pontas, hoje, são móveis e intercambiáveis: alguns estendem comportamentos adolescentes até para bater um reles pênalti, enquanto sessentões descobrem um acréscimo de tônus juvenil numa bem-vinda libertação de pesos da longevidade. Shakespeare, no Rei Lear, destaca o que importa: “Maturidade é tudo”. A sensação de inteireza emocional na largada e no começo do fim. Logo na abertura do clássico O Amante, de Marguerite Duras, lê-se uma frase que era das preferidas do inesquecível amigo Luiz Alca de Sant’Anna: “Muito cedo na vida ficou tarde demais”. A péssima sensação de oportunidades perdidas, temores paralisantes ou de quando a velhice não vem acompanhada dela, a sagrada maturidade. Quanto a literatura nos ajuda, leitor! Num toque de Google tens à mão e à mente contos preciosos sobre o passar dos anos, convívio familiar, ter que se virar sozinho com ou sem filhos. Indico duas pérolas: Drama Humilde, do mestre da narrativa breve e densa, Guy de Maupassant, e uma tragicômica estória da assustadoramente lúcida Clarice Lispector: Feliz Aniversário. Que retrato das primícias e penas de chegar longe nessa nossa íngreme estrada. Corrijo a máxima rodrigueana: “Jovens (e velhos), amadureçam!”.