(Reprodução/ X) Ler o Rosa é namoro, um chegar junto torneando signo e significado. Ler escandido frase por frase, feito os blocos da Catedral de Chartres, onde os tijolos postos em alinho nunca mais alcançariam a soma das partes. Rosa escrevia sem rastro, irrepetivelmente inédito, ainda que no lance de dados nada por acaso. Ele e Borges fundaram estilos: aficionados, leem como exegetas. Rosa médico nos pedia anamnese do mundo dado como sintoma. Escrever é risco. No Grande Sertão, ele nos dá toda boa prática da perícia no manuseio da arma. “Pontaria, o senhor concorde, é um talento todo, na ideia. O menos é no olho, compasso”. Metáfora do seu traquejo inumano na escritura. Escrever literatura é santo, ele exercia monge. Escrever ao poeta deste porto mítico, bem sabemos, é estiva, canseira física, o corpo pensa. Na biografia escrita por Leonêncio Nossa, que não mais largo, assim como nunca larguei a de Freud por Peter Gay, Rosa pontifica sobre o alquímico labutar que é ser escritor em alto relevo: “... o bom escritor é um arquiteto da alma. O escritor, naturalmente, só o bom escritor, é um descobridor. O escritor deve ser um Colombo”. Estou a reler o autor preferido de Machado, Jonathan Swift, nas Viagens de Gulliver, monumento que completa 300 anos. Não é que lá você, leitor, acha um trecho antecipando de modo estilizado todos os pressupostos da inteligência artificial, numa engenhoca de ‘prompts’ artesanais? Gênio na literatura é farol, Rosa alumiava feito o de Alexandria, contendo a biblioteca em seus prismas. Entre a vida e a arte, de longe, Rosa foi ao sacrifício pela arte. “Devia ser proibido escrever sem antes ter passado por um noviciado rigoroso como o da religião. Escrever é coisa sagrada”. Com tanta ‘literatura fofa’ de escrevinhadores, imagino o Rosa vivo, horrorizado com o avilte do engenho de criar contando ou poetando, reinventando o próprio jeito de dizer as coisas. Fez furor a decana uspiana, querida amiga Aurora Bernardini, ao não considerar Annie Ernaux e Itamar Vieira escritores no sentido pensado por Rosa. São até bons comunicadores de experiências, mas sem o cinzel que lapida o senso, ao mesmo passo que encanta. Literatura é invenção, fazer o novo ainda que lastreado pelo imemorial, o arcano, os rudimentos transliterados do arcaico. Os pedagogos batem cabeça para achar antídotos contra textos escritos por IA. Rosa é o melhor antídoto, paradigma daquilo que não está em nenhum gibi. Não é difícil sondar elementos dos que contrabandeiam talento usando inteligência artificial. Isso nos ameaça. Eu me sentiria um canalha rodriguiano se escrevesse recorrendo a essa dama de platitudes e vida fácil. Não imaginem o Rosa elitista, ele só padecia de uma sensibilidade quase patológica para um esmero desmedido, ao dizer a vida vivida e pressentida. A Hora e a Vez, de Augusto Matraga, bem daria um clássico western de John Ford, mas não faz feio aos embates homéricos entre Aquiles e Heitor de Troia. Rosa esculpia magma, alinhavava ruminando. Era um médium polifônico de metáforas absurdas, metonímias rutilantes, gozozas prosopopeias. Daqui mil anos, se planeta houver, será chamado nosso Homero sem fardo, um artesão de sutilezas em brasílicas e universais epopéias. Leonêncio disseca o Rosa leitor de Goethe, sem esquecer do Rosa ouvindo moda sertaneja raiz, baião de Luiz Gonzaga, Rosa que sofria banzo de frango, quiabo, toucinho e tutu de feijão, perambulando o cais de Hamburgo ou o Quartier Latin, sonhando sonho de rede com cheiro de roça molhada de chuva torrente. Rosa gostava de gostar, curtia antes da aplicação existencial do verbo de ruminância. Sabia ser-mos seres das entrelinhas, do não-dizível na tentativa do dito, do sacolejar que molda tombos e delineios. Rosa fala por Riobaldo: “O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”.