(Matheus Tagé/Arquivo AT) As academias, em seus vários níveis, sempre foram o retrato da nossa evolução social. Durante a concepção da Academia Brasileira de Letras, em 1897, Júlia Lopes de Almeida, das maiores contistas brasileiras, só ultimamente resgatada, fez parte das reuniões preparatórias de sua fundação. Quando da concreção do projeto, foi preterida por ser mulher. Já no surgimento da Academia Paulista, uma santense de coração e prima de Júlia, bisneta da mítica inconfidente Bárbara Heliodora, Presciliana Duarte de Almeida, foi eleita por sua envergadura poética e por ter fundado, ainda no século 19, a primeira revista feminista do Brasil, A Mensageira. Para honrar a estirpe, sua neta Beatriz Duarte lançou linda antologia neste verão na Casa das Culturas de Santos. Durante a mesma época da fundação da Academia Santista de Letras (ASL), duas conterrâneas de Vicente de Carvalho iriam ocupar destacado lugar na Academia Paulista: sua sobrinha, fundadora da Santista, Maria José Aranha de Rezende, a Zezinha, e Itacy de Souza Telles. Itacy, brava progressista, sogra do imenso prefeito Silvio Fernandes Lopes, amiga de Pagu, era dotada de raro acento metafísico, num lirismo esmerado. No dia 26 de dezembro de 1959 (vejam que as festas de fim de ano não paralisavam a inteligência!), Itacy lançava Alameda dos Sonhos, em reunião que se mostrava prova de nossa convergência artística. Foi saudada pelo presidente da União Brasileira de escritores, seção Santos, Aristeu Bulhões; pelo presidente da ASL e do Centro, Martins Fontes Thales de Melo; por Zezinha, em nome do Clube da Poesia; e, representando o prefeito, o presidente da Comissão de Cultura, Clovis de Carvalho. O Teatro do Estudante de Santos foi criado por Newton de Souza Telles, filho de Itacy, e a primeira peça, Athenea, escrita pela inquieta dramartuga. O Clube da Poesia foi criado em 1958, por estímulo de A Tribuna, como extensão juvenil da ASL, para promover novas gerações de poetas. Um dos seus membros seria nosso maior dramaturgo nacional, Plínio Marcos. Sua mecenas, a agitadora cultural Mirta Guarany Rosato, que sediava em sua imponente residência os saraus e soirées beletristas. Clovis foi fundador do Clube de Arte, com Mário Gruber, Gilberto Mendes, Oscar Von Pfuhl e esposa, Gilberta Autran, irmã de Paulo Autran. A Academia Santista, o casal Geraldo Ferraz e Pagu e A Tribuna alinhavavam esse turbilhão de iniciativas em nome do espírito pensante e criativo. O Clube de Arte tinha forte acento ideológico, como biombo de formação de quadros para as atividades clandestinas do Partido Comunista. Pagu e Geraldo advinham do trotskismo e da esquerda independente. Logo, na Academia Santista, seriam eleitos intelectuais egressos do integralismo, como o inesquecível paraibano Trigueiro Lins. Nada invalidava a convivência comum e o esforço ingente por uma Santos exuberante culturalmente. Santos do Conservatório Lavignac, do Ballet de Décio Stuart, das aulas de pintura de Guiomar Fagundes; Santos de Maurice Legeard. Sobre Itacy, quis o destino ter-me sido depositário de seus diários e originais, pela generosidade do confrade Sergio Fernandes Lopes, hábil cronista da noite e dos afetos do dia. Recordo que a expressão Alameda dos Sonhos, que deu título à obra imorredoura, adveio da beleza dos jambolões do bucólico Canal 3, nomeado assim por Cacilda Becker, estrelando com Ziembinski, no Rio, em carta à saudosa amiga Rosinha Mastrangelo. Rosinha, que tive a honra de substituir na Rádio Clube, a quarta emissora brasileira, cronista aos 15 anos. Santos não é pouca coisa!