(Matheus Tagé/ AT) Que cidade poderia compor lista de patronos para sua Academia recém-fundada com vultos próprios do pensamento e das belas letras com relevo nacional e internacional? Depois da criação com doze membros pioneiros, já em março de 1957, o presidente Primo Vieira passa o bastão para uma diretoria completa e a posse de vinte e cinco acadêmicos. Os patronos, todos santenses de nascença ou coração: o patriarca José Bonifácio e seus irmãos Antonio Carlos e Martim Francisco; Bartolomeu e Alexandre de Gusmão; o romancista do celebrado A Carne, Julio Ribeiro; o médico sergipano Ranulpho Prata, autor da obra-prima Navios Iluminados; o polemista Galeão Coutinho, colega de Menotti Del Picchia em A Tribuna; e o criador do romance regionalista Valdomiro Silveira, pai de Miroel, referência em crítica teatral e um dos idealizadores da ECA-USP. Acredito que poucas capitais teriam um time de literatos e vultos de tamanha grandeza, todos da terra, aqui residentes e sepultados. Eternizados ‘santisticamente’ para o mundo. Claro! Duas cadeiras homenageando os mais lidos poetas brasileiros da primeira metade do século: Vicente de Carvalho e Martins Fontes. A cadeira de Saulo Ramos, sob a égide de Paulo Gonçalves, poeta e dramaturgo introdutor do surrealismo no teatro com a peça antológica A Comédia do Coração. Contrariando suas idiossincrasias modernistas de aversão aos cenáculos, o poeta Cassiano Nunes aceita compor a Academia Santista de Letras nascente. Cassiano, amigo de Drummond, um dos fundadores da cátedra de Literatura da Universidade de Brasília (UnB), dos mais queridos professores brasilienses, depois de ajudar a criar a ASL, tornou-se a primeira grande personalidade da também nascente Capital federal. Graduou-se em Ohio e Heidelberg, deixou um museu para Brasília, sem nunca esquecer do pôr do sol na hora mágica da Ponta da Praia. Não poderia faltar mais um mestre da Casa Amarela, nossas arcadas caiçaras do Direito: o erudito Professor Archimedes Bava, que lecionou para meus amigos e grandes personagens da terra Luiz Corvo, Carlos Conde, José Geraldo Barbosa e Geraldo Pierotti. Outra presença muito enobreceu essa formação na gênese do sodalício: o seu primeiro secretário-geral, o médico obstetra, filantropo sincero e cronista dedicado, Acácio Ribeiro Valim, que recordo médico amigo da família e espiritualista colega da futura confreira Edith Pires Gonçalves, no Centro Anjo da Guarda. Acácio, genro de João Moreira Salles, empresário mineiro e presidente da Associação Comercial de Santos, casado com Elza e cunhado do ex-ministro da Fazenda e banqueiro Walter Moreira Salles. Acácio era bem o espírito de ligação tão estreita entre as economias do sul mineiro e Santos, nossa intimidade com Poços de Caldas e o ouro verde daqui exportado. É importante perceber que a Academia surge naturalmente da ação de literatos de escol e escritores prolíficos, com ampla ação cultural pública. Muitos dos fundadores, como Álvaro Augusto Lopes e Bava, já haviam participado da primeira Comissão Municipal de Cultura, criada no próprio gabinete do prefeito Ciro Carneiro, em 1940! A Academia foi gestada pelo espírito progressista do tempo, o boom econômico do pós-guerra e a proeminência de Santos no zeitgeist bossa nova. Tradição com vanguarda.