(Matheus Tagé/ AT) A cultura é fruto essencialmente da sócio-economia de uma comunidade, direta e profundamente assim. Santos teve dois grandes ciclos econômicos que ecoaram culturalmente em todo o Brasil através de seus vates. Entre 1890 e 1930, auge do café exportado por aqui, quatro dos maiores literatos nacionais eram daqui ou aqui viviam: os poetas Vicente de Carvalho, Martins Fontes, Francisca Júlia, e o romancista Julio Ribeiro. Inglês de Souza, da Academia Brasileira de Letras, e seu confrade Garcia Redondo, engenheiro das Docas, aqui moravam. O eixo São Paulo-Santos era a economia brasileira. Tudo isso deu no nosso apogeu parnasiano e na decorrente antítese modernista da Semana de 22. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Depois da Segunda Guerra, vivemos outro ciclo de crescimento promovido por obras como a da Via Anchieta e a urbanização costeira. Em 1948, surgem na cidade praiana o Clube de Cinema, fundado por Gilberto Mendes, o Clube de Gravura, sob a égide de Mário Gruber, tornado Clube de Arte, o Centro de Expansão Cultural de Carolina Costa e Aura Botto de Barros, já em 1949, e a Sociedade de Cultura Artística de Santos. Todo esse movimento era incrementado por este jornal A Tribuna, na figura de Geraldo Ferraz, editor-chefe, e da mitológica Pagu. Dentro desse espírito agregador da arte, sentiu-se necessário, dadas as condições objetivas de lastro intelectual e formação de público, termos um grêmio nos moldes da Casa de Machado de Assis. Três dínamos foram promotores decisivos de sua organização: o jovem de Brodowski, jornalista da casa e poeta bissexto Saulo Ramos, o advogado Clovis Pereira de Carvalho, que já dirigia os clubes de Arte e Cinema, e o Monsenhor Primo Vieira, professor da Faculdade de Direito na Casa Amarela e poeta de delicados versos canônicos. O monsenhor participaria da Academia Goiana de Letras e academias do interior mineiro e daria lustro da cátedra e da tradição ao novo cenáculo santense. Os modernistas daqui faziam coro aos nacionais, se recusavam a participar do espírito acadêmico, então visto arcaico e elitista. Roldão Mendes Rosa, Narciso de Andrade, Cassiano Nunes e Nildo Serpa Cruz formadores do ‘pesquisismo’ não cerrariam fileiras com o amigo Saulo Ramos. De novo, recorreram a A Tribuna com o aceite de Maria José Aranha de Rezende, cronista e poeta futura da Academia Paulista, o critico literário Álvaro Augusto Lopes, amigo dileto de Ribeiro Couto, e outro mestre de nossas arcadas, o Dr. Archimedes Bava. Dois atributos eram onipresentes: eruditos e tribuneiros. Ressalta-se a figura feminina de Zezinha, autora do prestigiado Rosa Desfolhada, quando a Academia Brasileira só abriria as portas a Rachel de Queiroz, a primeira mulher, muitos anos depois. Não poderia faltar um Silveira. Cid Silveira, sobrinho de Waldomiro e Isabel, primo de Miroel e Dinah Silveira de Queiroz, e mais um escritor na família mais literária paulista. Cid fundou, nos anos 40, uma revista eminentemente literária: Terra Santista, com o professor Freitas Guimarães. Como veem, a Academia Santista foi amálgama perfeita dos bancos da Casa Amarela e do diário de Giusfredo Santini. Naqueles anos de Pagão, quando Pelé despontava, Santos montou uma seleta de craques que vivia a literatura visceralmente. Voltarei ao tema sobre essa instituição que me honra com a cadeira de meu guia, o Poeta do Mar.