(Matheus Tagé/ AT/ Arquivo) A Academia Santista de Letras (ASL) surgiu espelhada na Academia Brasileira de Letras, que por sua vez foi criada sob a égide de Machado de Assis, inspirando-se na Academia Francesa, que nasceu nos tempos de Richelieu, no século 17. Seus preceitos comuns eram a preservação e divulgação do idioma e literatura pátrias, bem como culto às artes, pela excelência de membros à altura de sua tradição. Designação de patronos, cadeiras numeradas, fardão e adereços como vestimenta foram requisitos também exigidos. A Santista teve membro numero 1 o erudito Álvaro Augusto Lopes, crítico literário de A Tribuna, amigo de infância de Rui Ribeiro Couto, então detentor da cadeira 26 da ABL. Ribeiro Couto, embaixador na então Iugoslávia, ajudou a moldar estatutos e o perfil de formação da ASL, através de Álvaro. Recordo seu filho Luiz Lopes, meu amigo e advogado santense, a dizer da gênese da Casa de Martins Fontes. Um clássico para conhecer esse período, excede em informações no livro Ribeiro Couto, Ainda Ausente, do professor Milton Teixeira, obra referendada pela ABL. As academias no Brasil pulularam depois do segundo pós-guerra com maiores ou menores desvios de finalidade. Nas metrópoles e cidades menores, surgem grêmios como arremedos de cenáculos, eivados de jogos de interesse sócio-político, compadrios e provincianismos caricatos do ‘petit Trianon’, com patuscadas de salão, cenário de poetastros, entre chá e simpatia. A Academia Santista nasceu grande e com sérios propósitos, composta por catedráticos da Casa Amarela, intelectuais de A Tribuna e literatos reconhecidamente envolvidos com o mister e suor que a labuta da poesia e prosa nos impõem. As academias têm trajetórias cíclicas. A Brasileira teve um longo reinado, com presidente reeleito por décadas, Austregésilo de Athayde, nem sempre dignificante. As academias devem primar por institucionalidade e transparência inequívocas, a não se confundirem com clubes. Devem mirar o interesse da comunidade que representa, com nítido perfil sócio-educativo, sem fechar-se em cerimoniais inócuos e à aridez de ação. A ABL, nas últimas duas décadas, viveu ressurgimento solar nas presidências de Nélida Piñon e Marcos Luchesi, integrando-se a refletir os dramas nacionais, promovendo seminários, palestras semanais e interagindo com novas mídias, novos suportes conteudais, chegando às congêneres da ciência e do conhecimento, indo aos presídios e comunidades carentes, como dizia Guimarães Rosa, sentindo “as dores do mundo”. Distantes da alienação de gabinete, as academias se tornam agentes de transformação, primando pela riqueza na diversidade. Compostas pelos afro-descendentes Machado e João do Rio, quantos gênios como Lima Barreto foram excluídos pela negritude ou comportamento rebelde às convencionalidades. Mário Quintana foi preterido três vezes! Todos os eleitos passaram, Quintana, passarinho... Quando perguntado pela preterição, respondia: “Depende do QI... quem indica!”. Felizmente, na ABL e na Paulista, são tempos idos, onde nos honram Krenak e Djamila Ribeiro. Nossa ASL teve um renascimento, justamente com nosso resgate de autonomia política, na presidência de luminares da cátedra e da pena: os professores Conceição Gmeiner, Clotilde Paul e Milton Teixeira. Honra-me ter sido eleito, ainda que sofregamente, para a ASL, tendo confrades com biografias trilhadas na escrita e na pesquisa, feito Carolina Ramos, minha eterna professora Wilma Therezinha, e o coronel Secomandi. Como propugnou o confrade Raul Christiano, quando de minha eleição: “É preciso escritores na Academia”. Salve, Santista de Letras!