(Pixabay) A Academia Santista surge no momento em que a Cidade, como diz a meninada, estava ‘bombando’. Ganhara autonomia política para eleger seu prefeito e uma ligação decisiva com o Planalto. Os governos desenvolvimentistas de Antonio Feliciano e Silvio Fernandes Lopes e a Via Anchieta são símbolos definitivos dos nossos próprios anos dourados. Como diz mestre Hegel, vivíamos o ‘acaso objetivo’. Santos coroava o que tinha que ser histórico: porto maior, porta de entrada e saída para o mundo. Só para ilustrar nossa projeção e nosso afluxo, Ulysses Guimarães, presidente da Câmara Federal, era influente diretor do Santos Futebol Clube. Na Sociedade Humanitária, eram comuns palestras — espetáculo de intelectuais da estatura do crítico Agripino Grieco e do poeta Guilherme de Almeida. Nos vinte anos de martírio de Federico Garcia Lorca, em 6 de agosto de 1956, um evento marca o apogeu desse movimento de vigor cultural da Cidade. Uma matéria de A Tribuna assinada por Geraldo Ferraz e Patrícia Galvão, e ilustração de ninguém menos que Lívio Abramo, com o título de Apologia e Protesto, dava a senha do que viria num megassarau no auditório da Rádio Clube de Santos. Foi a primeira grande participação da Academia Santista de Letras como coletivo de formação literária, além de confraria intelectual. O palestrante da noite foi o crítico literário Edgard Cavalheiro, que acabara de publicar a segunda edição de sua biografia de Lorca. Nesse afã de congregação em torno da poesia e da prosa, é de imediato criado o Departamento de Literatura do Clube de Arte, instituição sob a égide de Mário Gruber e Gilberto Mendes, que convidam Teresa de Almeida, atriz e tradutora de Roland Barthes, e o poeta Roldão Mendes Rosa para dirigi-lo. Eis que nomeiam a fundadora da Academia, a imensa poetisa Maria José Aranha de Rezende, para a realização de Noites de Poesia, com o melhor da lírica mundial desde Petrarca e Camões. Dois jovens brilhantes que se destacariam nacionalmente, jurídica e intelectualmente, são os dínamos da mobilização poética e erudita: o jornalista Saulo Ramos, comentarista político de <FI10>A Tribuna</FI> e fundador da ASL, e o jovem jurista Ives Gandra Martins, confrade emérito da Casa de Martins Fontes. A partir dessa convergência seria criado o Clube de Poesia de Santos. A ASL, assim que surgiu, já fazia a interligação entre os vários segmentos culturais da Cidade com seus congêneres nacionais e mesmo internacionais. Lembrando que professores e acadêmicos, como Archimedes Bava e monsenhor Primo Vieira, eram a cátedra em movimento, com o melhor das sumidades brasileiras. Neste ano em que comemoramos os 70 da Academia e os 90 anos do desaparecimento bárbaro de Lorca, veio-me a bênção de poema do sempre presidente da Academia Paulista de Letras, o luminar Ives Gandra, ao vate maior da hispanidade. Poema lançado em antologia portuguesa premiada. “Garcia nasceu poeta/nas terras de Andaluzia/descortinando horizontes/que o mundo desconhecia/A ponte de seus poemas, no espaço-tempo infinito, fez da palavra o universo e do universo um só grito/Morreu poeta da vida, nasceu poeta da morte, como nas bodas de sangue, como nas quadras do forte/Nos panoramas dos sonhos, nas angústias de seu canto, as almas descompassavam gerando sombras de espanto. A juventude arrancada, numa guerra fratricida, fez do tempo eternidade e da morte a própria vida/Garcia nasceu poeta/nas terras de lenda e mito, fez da palavra o universo e do universo o seu grito”.