Era março de 1916, o verão findava indiferente ao conflito mundial, corsos e entrudos rasgavam a fantasia do porto mítico de Santos para a realidade das transformações civilizacionais. A Primeira Grande Guerra forçou um primeiro boom industrial brasileiro na substituição de importações à crescente burguesia cafeeira. O cais santense fervia de imigrantes foragidos do conflito. Nova Iorque e Buenos Aires eram destinos alternativos às companhias de teatro, ao afluxo de artistas desempregados e portas de entrada à América ainda neutra. Santos ficava no zênite da triangulação de destinos. Depois de receber Sarah Bernhardt, Puccini e o Caruso, o Teatro Guarany sonhava longe: quem sabe Nijinski e o Grand Ballet Russo atracados no Valongo a caminho do Teatro Colon não se apresentavam aos barões da pauliceia veraneando na costa? No Palace Hotel, encravado na Praia do José Menino, potentados do PRP, sob o comando de Galeão Carvalhal, lotavam os salões para discutir a posição do governo Wenceslau Braz no litígio. Culturalmente francófonos, financeira e estruturalmente ingleses e militarmente germanófilos, para garantir a segurança do fluxo de capitais e bens, cabia-nos um dolce far niente plácido no paraíso tropical. Com casa em São Vicente e trabalhando na Santos-Jundiaí, o introdutor do football via sua cria florescer como esporte de elite. O Santos se preparava para uma partida de inauguração no campo do São Cristóvão, no Rio, e Miller inspecionava a construção do estádio da Vila Belmiro, a ser inaugurado em outubro. Nos banquetes e regabofes, entre casacas, polainas e a canícula dos portuários, nos chalets de luxo dos Almeida Prado e Guedes Penteado, em Guarujá, ou no imponente Parque Indígena de Júlio Conceição, hospedando Rui Barbosa depois de mais uma derrota civilista, as libações só se faziam por cerveja. De Santos para o Brasil, a sensação era nossa Braz Cubas, envasada e comercializada por fábrica local, na Rua Senador Feijó, 415. Seria consumida pelo pândego Emilio de Menezes em visita a Martins Fontes e mataria saudosa sede da Guinness do lendário cônsul britânico em Santos, Roger Casement. Casement, amigo de Joseph Conrad, inspirou seu clássico No Coração das Trevas, que por sua vez seria adaptado, por Coppola, no clássico maldito Apocalipse Now. Vargas Llosa ganharia o Nobel com seu romance O Sonho do Celta, sobre o cônsul erudito que dividia os dias entre a Cerveja Braz Cubas e a espionagem a favor da independência de sua Irlanda. No Café Paulista ou na Confeitaria Rosário, entre petit fours de Petrópolis, goles de xerez ou o onipresente tremoço, só sorvia-se Braz Cubas, com a linda efígie da estátua do fundador da terra. Na virada do século, uma cooperativa de varejo associou-se diante da demanda geométrica, logo um forte lobby, e para o monopólio, um passo. Além do esporte bretão e do samba, uma nova mania nacional acompanhava a espumosa dourada: a carestia. Naquele março irrompe um movimento paredista; um comício convocara o povo ao protesto contra o aumento da que desce redonda. Era o prenúncio de motivação etílica das grandes greves anarcossindicalistas que marcariam o fim de impérios, da Belle Époque, e o advento do proletariado. O meeting marcado para o Rosário quebrara o footing do sábado de Carnaval. As expressões ianques indicavam para onde o mundo caminhava. Santos parara pela implantação da jornada de oito horas para os operários portuários. Seria epicentro da Lei Adolfo Gordo, de expulsão, especialmente, de espanhóis e italianos envolvidos nas justíssimas reivindicações, num tempo de jornada de até quinze horas de lida! A Braz Cubas acabou incorporada pela Caracu, com a Antarctica, no famoso prédio na Vila Mathias. Deu lugar à Cerveja Santista, e a ilha do fidalgo ainda sedia os maiores hubs de artesanais do Estado. Dedico mais esta crônica a um dos nossos leitores mais fiéis, o livreiro-símbolo Valdemar, da nossa Martins Fontes, em mais um lucidíssimo aniversário! *Escritor, membro das academias de Letras de Santos e Praia Grande e curador da Casa das Culturas de Santos flavioamoreira@uol.com.br