A cerveja é indício básico de civilização, o pão liquefeito dos sumérios, babilônios, fermento mesopotâmio de convivência e sintoma de assentamento gregário, prova da passagem de tribos nômades para o cultivo sedentário de grãos, cevando comunidades de nutrição e enlevo. Levedura dos egípcios, moeda de troca entre os operários das pirâmides, puro malte à disposição do populacho na vinífera Grécia aristocrata, a cerveja não se prestava aos ritos sequiosos de oráculos: era o néctar prosaico de metecos, o que não impedia que o maior de todos, Aristóteles, sorvesse a borbulhante sob a óptica da temperança entre virtude e vício. O apogeu sem lúpulo, essência fermentada, esteio de nutrientes de peregrinos, deu-se entre os monges. Escribas de alfarrábios clássicos, salvadores da Ética e de epopeias, exegetas escolásticos, tinham na cerveja ambrosia nos longos jejuns de quaresma, evitando os sólidos, alçando à ascese bebericando cerveja da aurora ao crepúsculo, com a bebida segura entre águas infectas no auge das epidemias. Densa, pastoso mix de carboidratos e proteínas, era garantia de salubridade pelo apuro da fervura e pelo barateamento na comunhão alegre com hóspedes e fiéis em busca de abrigo. O vinho é fina poesia; a birra sempre foi prosa cotidiana e citadina de aldeões carentes de encantos na dura lida. O vinho, comunhão; a loira gelada, efusão. O vinho, sempre introspecção das curtições centrífugas; a breja, expansão das sensações centrípetas, evasão reinventada no Brasil tropicalíssima. No Brasil, a cerveja vem de longe, de modo artesanal raiz, protocerveja em rincões onde os padres alternavam a catequese e o cevar de apetites em goles. De modo estruturado, foi em Santos que, de novo!, a cerveja vicejou com o porto, as imigrações europeias, o progresso da Pauliceia levado Serra acima, que fez, com o café, a locomotiva entrecortada das chaminés de Pindorama moderna. Cerveja pede água, e da boa, e das nascentes cristalinas dos morros santenses, pelo esforço de Eugênio Feder, bávaro da gema, surge a Cerveja São Bento. Tinha que ser santisticamente monástica a fabricação, que ganha as ruas sem depender da importação onerosa, restrita aos salões endinheirados da Belle Époque. A cerveja caiçara ganha as tavernas, excita a competição paulistana e Petrópolis e dá início à produção extensiva do malte sagrado, financiado pelo ouro verde. Lembrar é preciso que, assim como a importação e a comercialização do sorvete em massa, a popularização da até então recôndita vitamina trigueira deu-se fruto do café, pai de todas as ideias no país que surge num mundo reinventado pelo boulevard, o flâneur e as ruas como hábito, não só rota de passagem. De Paris a Munique, a cerveja é o timbre de cosmopolitismo e fruição duma burguesia ascendente, e foi entre o cais, o Valongo e as chaminés dos Matarazzos e Crespis que a cerveja tornou-se metáfora do apogeu efervescente. Foi nosso Martins Fontes, bom de copo, pioneiro do marketing, quem criou, com o príncipe Olavo Bilac, seu sócio na Agência Americana, os melhores dísticos sobre o comércio que explodiu com a eletricidade, os navios a vapor, o cinema, o advento da noite, período de convívio frenético nos abarrotados armazéns e galerias. A história do Brasil urbano é a história da vida privada em escala coletiva. Três hábitos que tomamos, sempre existidos, floresceram aqui nesta barra, nesta costa de entradas e partidas: as viagens transatlânticas como turismo, o banho de mar por lazer e a cerveja reunindo dândis, operários sudorentos na estiva, madeirenses e galegos fazendo a América no gole refrescante, nas mesas de mármore com cadeiras de palhinha ou biroscas saciando a sede depois da faina nas lingadas que erigiram esta pátria de sedentos. Não se sabe se o aforismo foi de Bilac ou de Fontes: “Um livro bem feito é como um redondo copo de cerveja”. Importa a analogia para o refinado da criação: a lira nos pede os sentidos fermentados, maturação do êxtase, decantação da escrita e o efeito dourado amalgamado por talento e técnica. *Escritor, membro das academias de Letras de Santos e Praia Grande e curador da Casa das Culturas de Santos flavioamoreira@uol.com.br