(Unsplash) Vivemos em contexto de mudanças significativas. Tão impactantes que consideramos disruptivas. A mudança da base energética de uma sociedade traz mudanças escalares: revisão da balança de poderes e nova geopolítica, comportamentos pautados por novos valores, uma outra forma de produção e novos mercados. A transição energética é, também, uma transição de eras. O desafio do setor portuário é grande. Ao mesmo tempo em que nossos portos estão dentro desses processos de mudanças, precisam se preparar e se adaptar para um futuro ainda incerto, que está próximo e requer agilidade. Bom, rapidez e infraestruturas são dois termos que ficam próximos em nossos desejos, mas raramente na realidade que vivemos. O estudo Panorama para Novas Energias, da BloombergNEF, de 2024, aponta seis trajetórias necessárias para chegarmos ao Cenário Net Zero em 2050. Relacionamos duas delas com o setor marítimo-aquaviário: redução imediata no uso de todos os três combustíveis fósseis - petróleo, carvão e gás - até a descarbonização total e a quadruplicação da produção de hidrogênio, principalmente para uso nos setores da indústria e dos transportes. Para a 1ª trajetória, o setor portuário caminha a reboque do setor marítimo. Os transportes são considerados uma das áreas de difícil abatimento – hard to abate -, com opções limitadas e altos custos para transição e uso de combustíveis limpos. Conseguimos reduzir 30% das emissões da navegação melhorando a eficiência energética, mas os demais 70% dependem do uso de novos combustíveis. A expectativa atual é de que as embarcações de longo curso façam uso de um mix de tecnologias e combustíveis. Fica a pergunta para os portos: como preparar suas infraestruturas para essas embarcações “flex”? Cientes dos desafios, observamos a mobilização da comunidade portuária em grupos de trabalho, comitês, agendas, políticas e programas, conduzindo estudos, conferências e reflexões, todos acompanhando tendências para melhor preparação do setor portuário. Para a 2ª trajetória, os portos assumem papel ativo e até mesmo nova função de eventuais produtores de energias limpas. Destacamos a posição estratégica e a presença de vantagens comparativas de alguns portos para participarem da cadeia produtiva de novas energias limpas, como solar, eólica e hidrogênio de baixo carbono. A Secretaria Nacional de Portos e o Internacional Council on Clean Transportation (ICCT) estão em parceria conduzindo um estudo específico para conhecer o potencial do hidrogênio de baixo carbono junto aos portos organizados. Somos muitos numa posição parecida de “sabemos que temos uma mudança em curso, precisamos nos mexer, ainda não está claro o que fazer”. O benchmark internacional traz algumas ideias. Destaco a experiência europeia do projeto Magpie (Smart Green Ports as Integrated Efficient multimodal hubs), criado pelo Porto de Roterdã (Holanda), em desenvolvimento com 45 parceiros, abrangendo 12 atividades-piloto que testam soluções técnicas, operacionais e processuais de fornecimento de energia para estimular o transporte multimodal verde. O objetivo é criar um plano estratégico pautado em novas energias para os portos verdes. Na esteira de mudanças, o que o projeto Magpie mostra é que os portos também podem ser facilitadores da transição energética. É uma nova forma dos portos se enxergarem e que leva a uma também nova relação cidade e porto: o porto como articulador de stakeholders para facilitar e criar as bases para a transição energética. A conclusão final: a transição energética traz mudanças disruptivas para os portos.