(Imagem ilustrativa/ Gerada por IA) Antes mesmo de escolher a cor da torneira, eu já estava cansada. A culpa é daquele campo aparentemente inofensivo dos formulários digitais: data de nascimento. Não sei quem foi o sádico que programou aquilo, mas tenho certeza de que nasceu nesse século. Ou então nutre um prazer secreto em ver pessoas da geração X desenvolverem tendinite no dedo indicador. Você abre o calendário e lá está ele, todo serelepe, estacionado em julho de 2026. Aí começa a peregrinação. Julho, junho, maio, abril... ano após ano... década após década... até chegar a uma época em que a televisão ainda tinha válvula e telefone era fixo. É um exercício de paciência e humildade. A cada clique para voltar um mês, a sensação é de que estou desfolhando minha própria certidão de nascimento. No meio do caminho, você passa pelo ano em que entrou na faculdade, pelo primeiro emprego, pelo casamento, pelas modas que jurava nunca mais usar e pelas músicas que ainda sabe cantar de cor. O simples ato de informar a data de nascimento acaba virando uma sessão involuntária de retrospectiva da vida. Falta só tocar uma trilha sonora de elevador enquanto o dedo continua clicando na seta para a esquerda. Quanto mais velha a pessoa é, mais longo é o caminho. Quem nasceu nos anos 2000 dá dois ou três pulinhos no calendário e pronto. Nós seguimos clicando como quem folheia um álbum de família. A cada década que passa pela tela, vem a impressão de que o computador está discretamente fazendo as contas e pensando: “Tem certeza de que ainda quer comprar isso?”. Quando finalmente encontro o ano certo, já nem lembro mais o que fui fazer naquele site. E não me venham dizer que há uma forma mais rápida. Se existe, ela foi escondida no mesmo lugar onde ficam as meias desaparecidas da máquina de lavar. O curioso é que esses dados são pedidos para qualquer coisa. Você quer comprar uma torneira. Uma torneira! E o sistema quer saber quando você nasceu. Fico imaginando o algoritmo fazendo contas. — Hum... nasceu em tal ano. Melhor oferecer um misturador monocomando com desconto para quem já sente dor nas costas. Sinceramente, deveria existir a opção ‘prefiro não comentar’. Minha idade não muda a pressão da água. Quando o celular preenche tudo sozinho, sinto uma gratidão quase religiosa. Finalmente alguém decorou meu CPF, endereço e telefone depois de eu digitá-los umas quatrocentas vezes. A inteligência artificial, nesse momento, faz jus ao nome. Mas nem sempre ela resolve. Há também o capítulo das senhas, uma espécie de caça ao tesouro moderna. Uma exige oito caracteres. Outra quer doze. Uma aceita símbolo. Outra rejeita símbolo. Tem a que obriga letra maiúscula, minúscula, número, sinal gráfico e, se bobear, tudo ao mesmo tempo. Passei anos tentando decorar todas. Perdi. Hoje, anoto tudo. No celular, no gerenciador de senhas e também num velho caderno. Porque aprendi da pior forma que celulares têm o péssimo hábito de morrer sem aviso prévio, levando junto toda a nossa memória digital. E, quando acho que sobrevivi a todos os cadastros, entro numa farmácia. Quero apenas um esparadrapo. Cinco minutos depois, já informei CPF, telefone, confirmei endereço, autorizei receber promoções, recusei participar do clube de vantagens e assisti à impressão de um recibo do tamanho de um romance russo, cheio de descontos para vitaminas, shampoos e fraldas. O esparadrapo? Esse continua custando exatamente o mesmo. Às vezes penso que o maior avanço tecnológico não é um celular dobrável, um carro que dirige sozinho ou uma inteligência artificial que responde a qualquer pergunta. Será o dia em que alguém criar um formulário com um simples botão escrito: “Nasci antes da internet”. Você aperta uma vez, ele preenche, dispensa metade das perguntas e ainda libera sua compra em menos de um minuto.