( Caio Sá/Divulgação ) Eu pensei que tinha escapado. Me vangloriava entre os amigos. Mas de repente, um dia, sem mais nem menos e nenhum aviso, passou a ser impossível ler um rótulo no supermercado ou uma bula de remédio. Todos me diziam que essa data de validade da tal vista cansada acontecia aos 40. Para mim, ela chegou com 15 anos de atraso, estou no lucro. Mas sou honesta, para quem viveu tantos anos sendo aquela que emprestava os olhos para ler as letras miúdas, é frustrante. Acho um tanto sarcástico esse termo vista cansada. É como se jogassem na sua cara que, apesar de sua mente te enganar que você é a mesma, você não é. Já contei que sinto que tenho um cérebro encaixado em outro corpo? É como se eu ainda tivesse 20 e poucos anos, mas o invólucro, umas décadas a mais. A tal vista cansada é tipo um lembrete permanente disso. Da noite pro dia, em uma manhã nublada qualquer, puft, você não lê mais as letrinhas, que aparecem todas embaçadas. Você lava o rosto. Toma um café. Acha que ainda não acordou. Até que cai na real e percebe que vai depender de óculos para sempre. Para quem é otimista, isso quer dizer que ultrapassou a barreira dos 40 anos, ou seja, (yupi!) uma boa notícia. No momento, por exemplo, escrevo esta crônica com meu mais novo companheiro inseparável — mais ou menos. É que o vivo perdendo por aí. Ainda não me habituei à nova companhia, só requerida quando o assunto pede proximidade. Se a vista é de longe, com ele tudo embaça. Aí tiro do rosto e vou largando por onde passo. Deixo na mesa do colega, no banheiro, no restaurante, no cafezinho...Sou obrigada a ter vários, uma coleção, porque não posso ficar sem. Seu uso tornou-se imprescindível para escrever, para ler, o que afinal é meu ganha-pão. Já me recomendaram usar aquelas cordinhas que penduram no pescoço e que sempre achei (desculpe se ofendo alguém) meio brega. Mas agora percebo que isso é o de menos. Elas têm sua função. E ganharam até um charme depois de eu perceber como podem ser úteis para evitar que além da vista cansada eu acumule uma dívida permanente nas óticas da cidade.