(Reprodução/ Instagram) Nessa semana de homenagens em torno de nós, mulheres, seguimos recebendo notícias assustadoras sobre como o sistema, a sociedade e o status quo continuam a nos tratar. Jovens que transformam o estupro em prática banal. Um reflexo brutal de um machismo estrutural em que mulheres ainda são vistas como objetos, descartáveis, enquanto homens permanecem — muitas vezes — intocáveis. Recentemente, após o ouro no hóquei masculino dos EUA nos Jogos de Inverno, o presidente Donald Trump fez um comentário no mínimo ofensivo ao conversar por telefone com os jogadores e convidá-los para a Casa Branca. “Tenho que dizer que precisaremos trazer a seleção feminina também. Vocês sabem disso. Elas provavelmente me destituiriam se eu não convidasse, certo?” Os atletas, lamentavelmente, riram. Vale lembrar: elas se revezam no topo do pódio com o Canadá há anos. Ainda assim, foram tratadas como um adendo, uma obrigação protocolar. O problema é que esse tipo de atitude, vindo de alguém que ocupa talvez o cargo de maior poder da Terra, ao menos do ponto de vista bélico e econômico, acaba por autorizar a misoginia de muitos outros reles plebeus. Venho de uma família de mulheres. Somos cinco irmãs. Fomos criadas para ser independentes, para entender nosso valor e lutar por ele, mesmo quando a correnteza insiste em ir na direção contrária. Minha mãe se casou cedo para conseguir fazer faculdade. Meu avô, que eu amava muito, não achava adequado. Com o tempo, ela — e depois nós, netas — mostramos que estava enganado. E ele se orgulhou. Mas não foi fácil para ela. No início dos anos 1970, deixou as filhas com empregadas, na escola, um dia com uma avó, outro com outra e até nos levava a tiracolo para estudar e trabalhar. Ouviu muitas críticas. Levou pedradas. Só que sua vidraça era blindada por uma convicção: queria ser mais do que mãe e esposa. Queria ser educadora. E foi. Dedicou a vida a isso. Teve quatro filhas, fez duas faculdades, acumulou especializações e passou em todos os concursos que prestou. Trabalhou muito. Muito mesmo. Ainda assim, sempre havia tempo para a caipirinha de abacaxi no fim de semana, na praia. Para cozinhar com meu pai ou para ler o jornal com calma. Era um tempo em que ainda havia tempo — não existiam celulares para roubá-lo de nós. Foi um exemplo para nós. Somos muito parecidas com ela — até a mais nova, que tinha apenas 13 anos quando a perdemos. Eu mesma tinha 28 e ainda tanto para dividir com minha mãe. Herdamos um pouco dessa obstinação. Talvez por isso sejamos um tanto viciadas em trabalho, felizmente em profissões que amamos, como ela incentivou. Também herdamos o gosto pela caipirinha de abacaxi e pelos encontros em volta da mesa, e eu, por ler e escrever jornais. Aliás, a mesa sempre foi nosso território afetivo. Nela, repetimos receitas que ela nos deixou em seus caderninhos, escritos com letra de professora: firme, clara e bonita. É ali, e em nós, que Carmen Lucia segue presente. Foi ela quem nos ensinou a amar ser mulher mesmo num mundo que tantas vezes insiste em nos fazer nadar contra a correnteza.