(FreePik) A minha casa parece que se tornou o quartel general das formigas. Basta uma migalha e, em poucos segundos, o pelotão entra em formação, naquela postura alinhada e ordenada que só esses minúsculos seres conseguem fazer. São coreografias perfeitamente executadas. Será que ensaiam ou é puro instinto de sobrevivência? Não sei, só sei que os cômodos da minha humilde residência se tornaram o campo de ação delas. Até no banheiro elas comparecem. E não adianta passar todo tipo de produto que elas voltam. Vêm da parede, de buraquinhos microscópicos que imagino darem para um mundo de caminhos e esconderijos cuidadosamente construídos. Será que esse ataque também faz parte das consequências das mudanças climáticas? Afinal, em pleno inverno os termômetros marcam 30 graus e se a gente não está entendendo nada, imaginem as formiguinhas que, como diz a fábula de Esopo, trabalham incansavelmente no verão para descansar com conforto no inverno. Como tenho gatinhos, estamos tendo que planejar o que faremos para conseguir dar um fim nesse exército sem baixas do lado de cá. Vamos precisar de organização e estratégia, como elas. As formigas sempre nos inspiram pensamentos positivos. São organizadas, trabalhadoras, unidas, perseverantes. Parece até cruel pensar em exterminá-las, mas não consigo evitar. Elas podiam arrumar outra morada. Quem sabe um jardim florido, um campo verde, que recebesse migalhas de pão levadas pelo vento. Não sei, algo assim bucólico e bem longe de mim e dos meus quitutes. Semana passada, esqueci completamente desse ataque sem precedentes e deixei um bolo de laranja sobre a mesa, em um prato bonito que é coberto por uma cúpula de vidro. Pensei que estava protegido, mas não. A tropa é insistente e conseguiu ultrapassar a barreira e conquistar o território. Resultado: o bolo foi para o lixo quase inteiro. Já fiz receitas caseiras como cravo da índia e canela, vinagre na limpeza, e também já coloquei aquela pomadinha antiformigas. Dá certo durante um tempinho, quase um piscar de olhos para se reorganizarem novamente e encontrarem suas brechas. Talvez elas estejam assim tão ávidas por também estarem ansiosas pelo nosso inverno, aquele que é só um refresco para o calorão, que deixa a gente sonhar com um fondue, poder curtir um quentão na festa junina, vestir um pijama de flanela, meias velhas confortáveis, tirar o edredom do armário e lavar com amaciante para perfumar o sono...Vem inverno, tchau formigas...