Eu acordava com uma musiquinha que, até hoje, parece ter ficado presa em algum cantinho da memória: “Vambora, vambora, tá na hora, vambora...”. Era o rádio anunciando que o dia tinha começado, muito antes de os celulares assumirem o posto de despertador, relógio, câmera, televisão, jornal, agenda, mapa, calculadora e companhia para o café. Meu pai era homem de rádio. Gostava de esporte, de notícia, de informação, e o radinho de pilha fazia parte da família. Não desgrudava dele. Se saíamos de casa, lá estava o aparelho. Até quando íamos à Vila, ele levava o inseparável, grudado no ouvido, acompanhando o jogo. Eu achava aquilo fascinante, principalmente porque havia um pequeno intervalo entre o lance acontecer e a narração chegar até nós. Hoje parece estranho imaginar uma informação viajando com atraso. Naquele tempo, era assim que funcionava. E havia uma coisa ainda mais fascinante: as imagens que o rádio era capaz de produzir sem mostrar absolutamente nada. Me lembro especialmente de Reali Júnior, correspondente na França. Quando ele entrava no ar, eu imediatamente imaginava Paris. Não uma Paris qualquer, mas aquela Paris cinematográfica que cabia inteira na minha cabeça. Ele tinha uma maneira muito particular de situar o ouvinte, com a clássica frase: “Neste momento, às margens do Rio Sena, junto à Maison de la Radio, os termômetros marcam...”. Pronto. Estava feito o serviço. Não precisava de foto, vídeo, transmissão ao vivo ou câmera apontada para o Sena. Na minha imaginação, ele estava lá, às margens do rio, com um sobretudo elegante, enquanto eu seguia a minha vida. O rádio tinha esse poder quase mágico de fazer a gente completar a cena por conta própria. Foi assim também com Claudio Carsughi, que perdemos esta semana. Muitas manhãs e tardes de domingo tiveram seus comentários como fundo da minha vida. A Fórmula 1 fervilhava nos lares brasileiros, especialmente nos tempos de Ayrton Senna, e Carsughi era aquele sujeito ponderado, preciso, muito bem informado, que nos fazia entender o que estava acontecendo para além da velocidade. A morte dele puxou uma gaveta inteira da memória. Lá dentro estavam meu pai, o radinho de pilha e uma quantidade impressionante de vozes que fizeram parte da minha infância e adolescência. José Silvério, o Pai do Gol. Osmar Santos, o Pai da Matéria. Fiori Gigliotti, a Voz de Ouro... No noticiário, havia Salomão Ésper, Joseval Peixoto, Mariza de Oliveira, Narciso Kalili, Joelmir Betting, Carlos Spera. Eram tantos nomes que percebo agora uma coisa que, naquela época, não me ocorria: eram poucas mulheres. Felizmente, isso mudou. Ainda bem, porque jornalismo precisa de muitas vozes, diferentes olhares e, sobretudo, equilíbrio. Minha vizinha gostava de ouvir Gil Gomes em alto volume. E, quando digo alto volume, quero dizer que o programa não era exatamente dela. Era do quarteirão inteiro. Eu ficava fascinada pelas pausas dramáticas, pela maneira como ele esticava cada história, criando suspense onde talvez houvesse apenas uma ocorrência policial que, narrada por outra pessoa, duraria três minutos. Com Gil Gomes, um parágrafo virava conto, o conto ganhava suspense e, quando finalmente chegava a hora da revelação, eu já estava quase atrasada para a escola. Queria saber o final. Hoje temos imagens de tudo. Fotografamos a comida antes de comer, filmamos o show antes de dançar, registramos o pôr do sol antes de olhar para ele e, se bobear, fazemos uma selfie até no meio da notícia. Naquele tempo, o rádio fazia o caminho inverso. Ele não entregava a imagem. Entregava a possibilidade de imaginá-la. Assim, as vozes permanecem tão nítidas. Não ficaram guardadas apenas nos aparelhos. Ficaram associadas às manhãs, aos domingos, aos jogos, ao cheiro da casa, à pressa para ir à escola, às tardes em família e ao meu pai caminhando por aí com aquele radinho grudado no ouvido, como se o mundo pudesse desandar caso ele perdesse uma notícia. Vambora, vambora, tá na hora, vambora. O rádio chamava para mais um dia, e eu nem imaginava que, muitos anos depois, aquelas vozes continuariam falando comigo. *Jornalista e gastróloga fernanda.lopes@grupo-tribuna.com