Agora, imagine quem já nasceu digital. Basta falar com o ChatGPT ou qualquer outra IA, pedir o que quiser e ela não só pesquisa como correlaciona dados e faz extrapolações (Reprosução/Pixabay) Não há jeito da gente ficar menos preguiçoso com tantas ferramentas ‘facilitando’ nossa vida. Li outro dia que foi feito um estudo com universitários – sempre que uso a palavra universitários lembro daquela programa do Silvio Santos que partia da premissa de que quem fazia universidade tinha mais conhecimento, o que achava, além de elitista, ilusório. Enfim, voltando ao tema, nesse estudo, pediram aos alunos para responderem um questionários utilizando a internet como meio de pesquisa. Para testar os participantes, foram colocadas intencionalmente informações erradas nos primeiros resultados das buscas realizadas pelos estudantes. Como previsto, os alunos se basearam nos primeiros links e erraram todas as questões. Nem precisava de estudo científico para isso, não é? Basta uma rápida olhada em comentários de posts de reportagens nas redes sociais para ver que as pessoas só leem enunciados, não pesquisam nada a fundo, não chegam informações e acreditam na primeira coisa que aparece se tiver bem ‘embaladinha’. Recebi por WhatsApp uma ‘notícia’ de um site que à primeira vista parecia o g1. Tinha o layout do g1, a cor do g1, a fonte de letra do g1 e até o estilo de escrita. Mas se a pessoa reparasse direito, o site era n1 e trazia na matéria um monte de publicidade e não jornalismo. Sou de uma geração que nasceu com a máquina de escrever, com a TV sem controle remoto, a rádio AM como noticiário e a FM com música. Para montarmos nossa playlist, tínhamos que ficar de plantão em frente ao aparelho de som para gravar assim que a música desejada começasse a tocar. E dava uma raiva quando o locutor falava em cima da música... Computadores e celulares eram coisas e ficção científica como Jornada nas Estrelas (Star Trek) e 2001 - Uma Odisseia no Espaço ou animações como os Jetsons, cujas previsões acabaram até se concretizando. Para fazer uma pesquisa, era preciso ir à biblioteca ou ter uma enciclopédia (caríssima) em casa. Depois, surgiu em Santos a hemeroteca, que reunia coleções de jornais. Tudo exigia organização, raciocínio e esforço. Agora, imagine quem já nasceu digital. Basta falar com o ChatGPT ou qualquer outra IA, pedir o que quiser e ela não só pesquisa como correlaciona dados e faz extrapolações. Mas sabe qual é o X da questão? É preciso saber perguntar. E para isso é necessário ter repertório. O questionamento errado leva, provavelmente, a resultados falhos, incompletos. Acredito de verdade que essa geração terá talentos diferentes dos nossos, pois serão exigidos de outras formas. Na verdade, já estão sendo. Nós, lá atrás, com o intercomunicador de Jornada nas Estrelas, sonhávamos com o celular e ele veio muito mais esperto ou smart. Os escâneres usados pelos médicos da nave Interprise ainda não são tão portáteis, mas a Medicina evoluiu absurdamente, está no nível de ficção científica. Ao contrário da empregada-robô dos Jetsons, nós temos o aspirador que limpa sozinho, as casas inteligentes, a Alexa que atende nossos comandos. Fomos facilitando nossa vida. Lembro sempre daquele filme Wall-e, que me impressionou demais quando assisti. Achei tão premonitório. Ele é de 2008 e já traz um planeta que entulhamos de lixo, de tal maneira que precisamos sair em um transatlântico espacial cheio de luxos e comodidades digitais. O terráqueos, agora navegando pelo universo, nem precisava mais levantar da cadeira, automatizada, que os levava para cima e para baixo. Claro, ficaram obesos, desaprenderam coisas básicas, ficaram dependentes da tecnologia e até se esqueceram, depois de tantas gerações, de como era a Terra. Isso até Eva, um robô, chegar para procurar vida na inóspita Terra e encontrar lá um robozinho solitário, o Wall-e, deixado ali para compactar lixo. Os dois se apaixonam e identificam que a vida voltou à Terra. Há cenas inspiradoras. É um filme lindo e com uma mensagem para adultos e crianças. É tão atual. Não devemos brigar com o que vem para facilitar nossa vida. Eu uso e muito. Sou daquelas que não posso ver uma novidade tecnológica. Gosto. Mas isso que vivemos não é uma onda, está mais para uma tsunami. E a gente tem que se preparar e aprender a enfrentar para não se afogar.